Johnny & June

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 06/02/2006.

Johnny & June (Walk The Line)

Responda rápido, sem pensar e em menos de 10 segundos: se eu te perguntar sobre “cinebiografias de ídolos trágicos da música internacional”, quantos títulos você consegue se lembrar? Eu mesmo digo vários, na lata. Senão vejamos: Richie Valens, Jerry Lee Lewis, Charlie “Bird” Parker, Selena Pérez, Jim Morrison, Ray Charles, Tina Turner, Sid Vicious… até a primeira formação dos Beatles (aquela com cinco integrantes) já teve sua história contada no cinema. Esta categoria de “filmes inspirados na vida de grandes astros da música” pode até ser considerada um subgênero, de tantas produções que já gerou. Sim, sim, sim, é filme pra dedéu! :-)

Bem, devo dizer antes de qualquer coisa que sou um fã devotadíssimo de Johnny Cash (1932-2003), um dos maiores e mais polêmicos nomes da música country-folk norte-americana, cujo estilo inconfundível influenciou a carreira de profissionais que nunca ouvimos falar (!), como uns tais de Elvis Presley, Roy Orbison, o próprio Jerry Lee Lewis… E como qualquer fã que se preze, assim que anunciada a primeira notícia sobre Johnny & June (Walk the Line, 2005), comecei a roer unha por unha ansiosamente à espera da produção. Afinal, um filme de Johnny Cash só poderia ser muito bom, no mínimo! Ou não?

Pra falar a verdade, eu estava é meio preocupado, isso sim. O que acontece é que, independente da genialidade de seu trabalho como músico e compositor, a vida de Johnny Cash não é tão mais extraordinária que a de Ray Charles ou Jerry Lee Lewis (na verdade, de Lewis ninguém ganha, já que o cara teve as manhas de casar com a própria prima de 13 anos… hehehe). Sim, a história de Cash traz muitos elementos cinematográficos, mas estes mesmos elementos já foram mais do que explorados e até desgastados nas outras “n” produções do gênero. Meu medo era ver Johnny & June não dar a devida importância ao lendário Johnny Cash e, com isto, transformar-se apenas em mais uma cinebiografia de um mito qualquer da música.

Felizmente, eu estava enganado. Johnny & June é, sim, um legado bastante justo para a grandiosidade da carreira de Cash, conhecido popularmente como O Homem de Preto. E o resultado se deve às escolhas feitas pelo ultra-competente diretor James Mangold, de Garota, Interrompida e do ótimo suspense Identidade – um cineasta cujo nome nos créditos já desperta meu interesse em qualquer película. Se Johnny & June é tão bacana, é porque Mangold escapa numa boa das obviedades na qual a fita poderia mergulhar e conta seu enredo em outro aspecto, fixando a câmera no real combustível da vida do sujeito: seu relacionamento com a também cantora June Carter (1929-2003).

A própria escolha do título brazuca (que até então eu odiava) parece se justificar, visto que o coração do longa é mesmo o amor entre Johnny e June – embora o título original, Walk the Line (traduzindo literalmente, Ande na Linha) tenha significados literais e metafóricos muito maiores.

Então, vamos à história: o roteiro do longa, escrito por Mangold em parceria com Gill Dennis, perde pouquíssimo tempo narrando a complicada infância do ídolo e sua entrega à carreira. Nascido numa família atingida pela Grande Depressão no Arkansas, em 1932, Johnny (ou JR, como costumava ser tratado pelos parentes) mergulhava nas músicas de um velho rádio para fugir da situação miserável da família. Meio desligado, o garoto era o alvo predileto das represálias do pai alcóolatra, Ray Cash (Robert Patrick, o nosso glorioso amigo T-1000), que declaradamente preferia o filho mais velho, Jack, garoto que dedicava-se com fervor aos ensinamentos da igreja e ao trabalho da família (o cultivo de algodão). Jack, por sua vez, tinha enorme carinho e senso de proteção com relação a JR, tornando-se o modelo de dignidade que Johnny Cash buscou seguir por toda sua vida.

A trágica morte de Jack leva JR (agora vivido por Joaquin Phoenix) a ingressar na Força Aérea Americana e, ao voltar, casar-se com uma namoradinha de infância, Vivian (Ginnifer Goodwin). Mais ou menos nesta época, JR acorda para a vida e começa a compor suas próprias canções. Em Memphis, no ano de 1954, forma uma banda com os mecânicos Luther Perkins (Dan John Miller) e Marshall Grant (Larry Bagby, de C.S.I.), e é contratado pela ainda minúscula Sun Studios – aliás, a seqüência na qual conquista a simpatia do dono da gravadora ao interpretar a canção-título I Walk the Line é de torcer o coração de qualquer um… Enfim, JR, rebatizado Johnny Cash, rapidamente ganha destaque ao apresentar canções ágeis com letras absolutamente amarguradas e depressivas, falando abertamente de amores perdidos e a busca da redenção.

O filme começa pra valer quando Johnny Cash e os mecânicos (renomeados The Tenessee Two) iniciam uma turnê pelos EUA na companhia de Elvis Presley, Roy Orbison e Jerry Lee Lewis, entre outros. É nesta época que Cash transforma-se numa lenda, compondo músicas para diversos artistas em ascensão, como o próprio Elvis; é nesta época que presenciamos o processo de construção de clássicos como Cry Cry Cry, Cocaine Blues, Folsom Prison Blues, It Ain’t Me Babe (imortalizada por Bob Dylan) e a obra-prima Ring of Fire; é nesta época que Cash perde o controle de si mesmo e mergulha fundo no vício em barbitúricos e anfetaminas (o cara toma remédio como água, é inacreditável!), o que abala seu já decadente casamento; e é nesta época que Cash conhece e apaixona-se por June Carter (Reese Witherspoon), também presente na turnê. É June a responsável pela redenção que Johnny sempre buscou em suas letras. :-)

Bem, como eu disse lá no começo, vê-se que a trajetória do músico não é menos espetacular como a de muitos artistas já retratados no cinema, e Johnny & June foge à regra justamente por respeitar este aspecto. O roteiro não quer contar a história de Johnny Cash, e sim a história que Johnny e June Carter construíram juntos. June, ex-menina prodígio vinda de uma família de cantores country, desenvolveu um talento nato para a comédia por julgar não ser boa o suficiente para levar uma carreira-solo no mundo da música. Assim como Cash, June também é uma desajustada, já que não é vista com bons olhos pela sociedade da época por ser divorciada. O amor entre os dois, que apóiam-se um no outro para poder sair do mar de lama e encontrar algum sentido para suas existências, é o motor da vida de Cash e é isto, nada mais que isto, que a produção quer nos mostrar.

Por outro lado, Johnny & June não poderia depender apenas da escolha do roteiro. Para que esta química funiconasse, seria necessário ter um par de protagonistas no mínimo adequados. E esta é a carta na manga da produção: Joaquin Phoenix e Reese Witherspoon – que me desculpem aqueles que ficaram indignados e doidos da vida com a indicação de Reese ao Oscar, mas ela merece sim! Joaquin Phoenix simplesmente encarnou Johnny Cash à perfeição em todos seus maneirismos, trejeitos e voz (sim, é ele que canta todas as músicas), trasmitindo toda a dubiedade e o turbilhão dos sentimentos do cantor sem perder o controle sobre a lenda de Cash.

Já o trabalho de Reese Witherspoon como June é encantador, não lembrando em nada sua interpretação em filmes como Doce Lar e Legalmente Loira. Sua primeira aparição, ao ficar “presa” na guitarra do Homem de Preto, é tão arrebatadora que entende-se no ato porque Cash caiu de quatro por ela. Em termos de comparação, digo que o trabalho da atriz aqui é como o de Kate Winslet em Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças: assim como Clementine, June Carter é uma personagem que não precisa de mais de quinze minutos em cena para conquistar toda a platéia. :-) Difícil imaginar outras pessoas nos papéis centrais.

Resumindo rapidamente (até mesmo porque esta resenha já está GIGANTE!), Johnny & June é um retrato digno e justo da gloriosa carreira de uma das figuras mais importantes da história do rock n’roll. E quando finalmente chega o momento mais esperado do longa, o concerto de Cash na Prisão Folsom, o público já entendeu faz tempo que Johnny & June não é apenas “mais uma cinebiografia de um mito qualquer da música”, e sim um irresistível trabalho sobre amor e perdão, que não importa-se tanto em narrar a vida de Johnny Cash de ponta a ponta, mas sim traçar todos os percalços e vitórias do caminho de um homem desajustado, até o mágico momento em que ele encontra sua paz e aprende finalmente a andar na linha.

Ai, ai… eu ando tão melado ultimamente! Preciso parar de ver estes filmes… :-D

CURIOSIDADES:

• Todas as canções de Johnny & June são interpretadas pelos atores. Joaquin Phoenix aprendeu a tocar guitarra especialmente para o longa. Ele e Reese Witherspoon treinaram canto por seis meses com o produtor musical T-Bone Burnett, conhecido nome da música country e freqüente colaborador dos Irmãos Coen. A escolha de Phoenix e Witherspoon para o elenco foram feitas pelos próprios Johnny Cash e June Carter em vida. June faleceu durante a pré-produção do filme, em maio de 2003; Johnny morreu quatro meses depois.

• Na seqüência em que Johnny Cash acorda no ônibus, logo após o concerto na Prisão Folsom (que foi gravado, transformado em vinil e figurou por noventa semanas na lista dos mais vendidos), é possível ver o músico Luther Perkins (seu guitarrista) com um cigarro na boca. Na vida real, Perkins morreu alguns meses após o concerto, em sua casa no Tennessee. O músico dormiu com um cigarro aceso na boca e faleceu devido às inúmeras queimaduras causadas pela queda da bituca…

• Quando Johnny Cash sofre uma overdose, em certa seqüência do filme, ele diz: “Felizmente, mantenho minhas penas numeradas em caso de emergência”. Esta frase é um dos maiores bordões do hilariante Frangolino, um dos personagens mais legais dos Looney Tunes. Cash era um fã incontestável dos desenhos do Pernalonga. E quem não é? :-D

WALK THE LINE • EUA • 2005
Direção de James Mangold • Roteiro de James Mangold e Gill Dennis
Baseado na autobiografia “The Man in Black”, de Johnny Cash, e no romace “Cash: an Autobiography”, de Johnny Cash e Patrick Carr
Elenco: Joaquin Phoenix, Reese Witherspoon, Ginnifer Goodwin, Robert Patrick, Dallas Roberts, Dan John Miller, Larry Bagby, Shelby Lynne.
136 min. • Distribuição: 20th Century Fox.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: