Melinda e Melinda

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 27/05/2005.

Melinda e Melinda (Melinda and Melinda)

Não sei como o Fanboy e o El Cid ainda não me botaram pra correr deste site! Afinal, A ARCA é uma casa quase totalmente nerd, certo? E alguém por acaso conhece algum nerd que, em plena semana de estréia do esperadíssimo terceiro-último capítulo da saga Star Wars, não queria nem saber do glorioso Darth Vader e encontrava-se em extremo estado de ansiedade e empolgação para assistir ao novo trabalho do Woody Allen? Pois é, agora você pode dizer que conhece pelo menos um. Muito prazer, eu sou o Zarko! “Cult maldito” para os íntimos. :-D

Brincadeiras à parte, sou mesmo um grande fã dos filmes de Allen. Na minha humilde opinião, é o único cineasta vivo que realmente faz jus à alcunha de “gênio” que carrega nas costas. E o tal novo trabalho do diretor, o filme pelo qual este que vos fala esperou com muito carinho e amor, é mais uma prova de seu inegável talento: Melinda e Melinda (Melinda and Melinda, 2004), 40.º longa dirigido e 55.º escrito pelo cineasta, é mesmo tudo isto que andam falando por aí; Allen, que não traz uma grande fita desde 2000, quando dirigiu Trapaceiros, entrega um de seus melhores trabalhos e mostra que sua criatividade não tem limites. O próprio confessou recentemente numa entrevista que, deixando a modéstia de lado, tem muito mais idéias do que conseguirá filmar.

Acostumado a revezar-se entre dramas profundos e comédias sutis, Woody Allen comanda neste seu último trabalho uma espécie de “dois em um”, uma narrativa que divide um mesmo ponto de partida em duas histórias, cada uma delas dentro de um dos gêneros. Tudo começa num jantar entre quatro intelectuais – personagens típicos do universo de Allen. Dois deles, o escritor Max (Larry Pine, de Os Excêntricos Tenenbaums) e o dramaturgo Sy (Wallace Shawn, colaborador habitual de Allen), iniciam uma amistosa discussão sobre a natureza humana. Qual seria a tendência do ser humano a encarar seus atos? Incliná-la para o lado trágico? Sim, na visão de Max. Ou encará-la através de um ponto de vista mais cômico, descontraído? É o que defende Sy.

Para que cada um possa provar sua tese, um terceiro escritor lança uma idéia: o cara dá uma premissa básica, e cada um continua a historinha a seu modo. A idéia: uma mulher, chamada Melinda (Radha Mitchell), chega de penetra num jantar. Que idéia, hein? :-)

Então, começam os “dois filmes em um”, sempre em paralelo. Na história dramática, um casal – o ator desempregado Lee (Jonny Lee Miller, de Trainspotting) e a viciada em compras Laurel (Chloë Sevigny) – oferece um jantar requintado a um diretor de teatro que pode ou não oferecer um papel a Lee em seu novo espetáculo. Lee e Laurel estão em crise, mas controlam a situação sem ousar tocar no assunto. E eis que, no meio do jantar, surge Melinda, de cabelos encaracolados, amiga de infância de Laurel e precisando de um lugar para ficar. Melinda, mulher misteriosa de passado turbulento, com tendência a beber tudo o que vê pela frente e fumar um cigarro atrás do outro, destila toda sua neurose narrando o melodrama que viveu nos últimos anos, e detona de vez o casamento de Lee e Laurel. E ainda acrescenta mais um personagem à trama, o sedutor pianista Ellis (o ótimo Chiwetel Ejiofor), que poderá selar o destino de Laurel e da própria Melinda.

Na trama cômica, substitue-se o casal. Somos apresentados, então, ao fracassado ator Hobie (Will Ferrell… sim, ele mesmo!) e sua esposa, a cineasta Susan (Amanda Peet, de Identidade). Susan oferece um jantar a um produtor que pode vir ou não a liberar verba para seu próximo projeto. Hobie espera participar deste projeto, mas é nítido que não há espaço para ele. Tanto no filme da esposa, quanto no próprio casamento. Então, Melinda aparece, de cabelos lisos, nova vizinha do andar de baixo, com um carisma fora do comum e um passado de relacionamentos tragicamente cômicos. Melinda, com sua conversa irresistível, conquista todos à sua volta. E, inconscientemente, desperta o amor de Hobie. Enfim, duas histórias que pretendem, cada um a seu modo, entregar como um gênero, ao final, faz parte do outro. E ponto.

Pois bem, o enredo de Melinda e Melinda é este aí. E quem conhece bem a filmografia de Woody Allen, já sabe o que encontrará neste longa: estrutura simplista, história amarradinha, diálogos memoráveis – reparem na excelente primeira conversa entre Melinda e o pianista Ellis – e atuações bacanas de todo o elenco. Impressiona a maneira com que Allen trabalha com elementos fantásticos em seus filmes; é tudo feito de uma forma tão simples e funcional que me faz até questionar as megaproduções com orçamentos astronômicos. O espectador nota a transição da trama dramática para a cômica através da trilha sonora, do brilho das cenas e do visual de Melinda (a única pessoa em comum nas duas histórias, e ainda assim as duas não são a mesma pessoa). Quer coisa mais simples que isso? :-D

Quanto ao elenco, podemos dizer que Allen, mais uma vez, dá um banho quando se trata de direção de atores. O caso mais notório é o de Radha Mitchell, mais conhecida como a fria esposa de Johnny Depp no fraco Em Busca da Terra do Nunca. Mitchell, que geralmente é apenas uma atriz “sem sal”, entrega uma atuação bem cuidadosa como as Melindas, e se sai bem em ambos os gêneros. Outro que destaca-se é o inglês Chiwetel Eliojor (que debutou no cinema com o subestimado Coisas Belas e Sujas), como Ellis. Ah, e um comentário: sim, a Chloë Sevigny é ótima, e mostra de uma vez por todas que não é somente aquela atriz que topou fazer uma cena explícita de sexo oral no controverso Brown Bunny. :-P

Bem, quanto ao caso de Will Ferrell… bem, a atuação do ex-SNL é praticamente uma cópia carbono do tipo neurótico que Allen acostumou-se a incorporar ao longo de sua carreira. Sim, o cara está igualzinho! Ferrell tomou o cuidado de copiar inclusive o jeito gago e nervoso de falar do habitual alter-ego do diretor. Entretanto, devo dizer que Ferrell é de longe o ator mais fraco do elenco e, se o ator até que não chega a incomodar em alguns momentos, em outros quase põe tudo a perder. Não entendo como tem gente que acredita no “suposto” talento deste indivíduo…

Infelizmente, nem tudo é perfeito em Melinda e Melinda. O final, por exemplo, parece que foi rodado às pressas. Enquanto uma das histórias parece estar incompleta, a outra termina rapidamente e meio sem graça. A impressão que se tem é que o orçamento do filme chegou ao seu limite e Woody Allen precisou se virar para terminar a fita com o material que tinha em mãos. Nada, claro, que tire o brilho deste que é, de longe, um dos destaques da excepcional filmografia do cineasta. Pra resumir, Melinda e Melinda é divertido, tem uma mensagem bacana e vale o preço do ingresso numa boa. E Woody Allen faz milagre. Menos com o Will Ferrell.

Só uma ressalva: não concordo muito com o ponto de vista do diretor neste roteiro. Afinal, segundo ele, qualquer tragédia tem seu lado cômico. Aposto que ele diz isso porque não assistiu O Filho do Máskara! :-D

CURIOSIDADES:

• De toda a equipe técnica de Melinda e Melinda, somente um pequeno grupo de pessoas tiveram acesso ao roteiro do filme na íntegra. É um dos métodos de Woody Allen, para que suas histórias não vazem. Do elenco, somente Radha Mitchell leu o texto inteiro. Os outros atores receberam somente as páginas relativas aos seus papéis.

• A história dramática de Melinda é identificada pela clássica Concerto em D para Violão: Andantino, composta por Igor Stravinsky. Já o enredo cômico é narrado com a ótima Take the A Train, do pianista de jazz Duke Ellington.

Melinda e Melinda é considerado um dos maiores sucessos de Woody Allen nos EUA, rendendo a impressionante marca de… R$ 4 milhões (!). Sim, esta marca para um trabalho de Allen é realmente impressionante.

MELINDA AND MELINDA • EUA • 2004
Direção de Woody Allen • Roteiro de Woody Allen
Elenco: Radha Mitchell, Will Ferrell, Chloë Sevigny, Jonny Lee Miller, Amanda Peet, Chiwetel Ejiofor, Wallace Shawn, Zak Orth, Larry Pine, Josh Brolin.
99 min. • Distribuição: Fox Searchlight.

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