Ladrão de Diamantes

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 07/02/2005.

Ladrão de Diamantes (After the Sunset)

Em alguns casos, as evidências são claras. Só de você olhar um cartaz, ler uma sinopse resumida, assistir um trailer ou até mesmo tomar conhecimento do nome do diretor, do roteirista e dos atores envolvidos em uma produção, já é possível identificar se o trabalho será bom ou ruim. Atualmente, o exemplar mais notório é, sem dúvida, o tal do Quarteto Fantástico idealizado pela tentativa de cineasta Tim Story. Ah, pelo amor de Deus, o cara dirigiu Táxi! E se nem um nome decente o cara tem (Tim Story, pra mim, é nome de filme da Pixar), será que alguém ainda acredita que ele tenha a capacidade de realizar um bom trabalho com a equipe do Sr. Fantástico?

Bem, como estava dizendo, alguns trabalhos conseguem se transformar em tragédias anunciadas desde o início de sua produção – o que parecia ser o caso deste Ladrão de Diamantes (After The Sunset, 2004), novo longa comandado pelo competente Brett Ratner (A Hora do Rush, Dragão Vermelho).

Vou explicar: este trabalho deu todos os indícios de que seria, no mínimo, um filmeco para se assistir na TV aberta quando não tivesse mais nada de importante a se fazer. Os elementos: uma sinopse envolvendo um tema bem batido (no caso, um roubo de diamantes); Pierce Brosnan fazendo um papel que não é James Bond, mas tem todas as características de James Bond (aliás, papel este que lembra muito Thomas Crown – A Arte do Crime, também com Brosnan); a totosona Salma Hayek no principal papel feminino – ok, eu sei, ela é linda e fez um bom trabalho em Frida, mas no geral ela é bem canastra; um cartaz americano bem bisonho (eu olhei aquilo e pensei: “Ué, novo filme do Robert Rodriguez? Cadê o Sin City?”), e um cartaz brazuca mais torto ainda; e por último, um trailer que agradou menos que o conjunto da obra já citado. Afinal, o que se vê no negócio é um monte de cenas bem ao estilo Missão: Impossível e Onze Homens e um Segredo, com um zézinho descendo do teto com aquelas roupinhas coladas e roubando um bagulho hiper-ultra-mega-seguro. Mas as aparências enganam, às vezes.

Pois bem: encarei a sessão e, na saída, fui obrigado a concordar: mais uma vez, torta na cara! Mais ou menos como em Entrando Numa Fria Maior Ainda, só que ao inverso. Enquanto a fita do Ben Stiller tinha tudo pra ser um filmão e acabou decepcionando bastante, Ladrão de Diamantes se mostrou uma ótima surpresa, daquelas que você assiste e sai do cinema de alma lavada. E o melhor de tudo: ela parece clichê, mas até que não é muito não. Tudo bem, aqui temos um roubo de algum artefato guardado a sete chaves e depois, a fuga dos ladrões para um paraíso tropical. Mas geralmente os longas-metragens com esta temática costumar terminar assim, enquanto que este filme começa deste jeito.

Bem, a trama é mais ou menos assim: Max Burdett (Brosnan), apelidado de “O Rei dos Álibis”, e sua parceira de crimes e namorada Lola Cirillo (Hayek) acabam de concluir mais um plano: o roubo do segundo dos três diamantes de Napoleão. Segundo a lenda, as três pedras enfeitavam o escaravelho da espada de Napoleão, e foram retiradas da espada quando o imperador partiu para seu exílio – e cada um dos diamantes estariam avaliados em aproximadamente mais de 80 milhões de dólares. Enfim, Max e Lola encerram mais um plano bem-sucedido, para o desespero do atrapalhado agente do FBI Stan Lloyd (o hilário Woody Harrelson, talvez o ponto alto da película) – que parece ser o único que realmente sabe com quem a polícia está lidando, já que persegue e tenta prender Max (sem sucesso) há anos.

Depois deste segundo assalto, Max e Lola decidem pendurar as chuteiras e curtir a “aposentadoria” numa paradisíaca ilha no Caribe. O que era pra ser somente “um merecido descanso”, toma outros rumos quando o casal percebe estar sendo seguido pelo agente do FBI, doente por vingança. Stan está convicto de que Max e Lola não tiraram férias naquele lugar por acaso, e tem um motivo nobre para isso: a Ilha Paraíso receberá a visita de um transatlântico, cuja atração principal é a exposição do… Já adivinhou? É isso mesmo: o terceiro diamante de Napoleão, o único que falta na coleção de Max. Seria uma grande coincidência? Ou a tal “aposentadoria” é só fachada para que Max possa tranqüilamente passar a mão na pedrinha sem que ninguém apareça para torrar seu saco?

De qualquer forma, Stan, mesmo sem jurisdição, decidiu que desta vez não deixará barato. Porém, Max, que não é burro nem nada, rapidamente se torna “amigo” do detetive (!), de modo a talvez despistá-lo. Mas… afinal, Max desistiu ou não de roubar? Onde entra Lola nesta história? Ela quer mesmo largar a vida de crimes ou está somente blefando? Stan age por justiça, vingança pessoal ou interesses próprios? E a bela policial local, Sophie (Naomie Harris), pode estar envolvida? E qual será o grau de ligação de Max com o perigoso Henri Mooré (o sempre ótimo Don Cheadle), o bandidão mais temido da ilha?

Claro que todas estas perguntas serão respondidas muito rapidamente – e de qualquer jeito, até lá todo mundo já adivinhou o que vai acontecer. Aliás, os rumos da história são muito fáceis de se descobrir. Talvez estes sejam os únicos pontos negativos a se destacar. O que importa, mesmo, é que a fita é muito bacana! Os diálogos são bons, as atuações são muito descompromissadas (principalmente a de Woody Harrelson, que mostra estar se divertindo a valer no papel), e o público se diverte às pampas durante a projeção. Sim, não há nada que faça a platéia exclamar: “Minha nossa, que excelente longa-metragem! Sem dúvida, ficará marcado para sempre nos anais da indústria cinematográfica”. É só um bom filme, divertido, engraçado, gostoso de ver. Altamente recomendado, sim, mas a nível de diversão rasteira, de passatempo fast-food.

Se é isto o que você procura, Ladrão de Diamantes é um trabalho de alta qualidade, perfeito dentro desta proposta. Nada mal para um projetinho feito sem muitas pretensões. E nada mal pra mim que, como já disse, esperava mais um filmeco… Tá bom, admito! Sou um pusta dum velho ranzinza, às vezes! Eu sou chato e deveria ser mais calminho! Estou tentando, tá? :-D

CURIOSIDADES:

• Apesar de parecer que foi tudo uma beleza, os atores enfrentaram um pequeno problema durante as filmagens de Ladrão de Diamantes: o frio. Em algumas cenas de praia, inclusive, é possível notar até a fumacinha da respiração dos atores. E eu fiquei esperando pra ver se a Salma Hayek também estava com frio…! Desculpem, meninas que lêem A ARCA, geralmente não sou machista e sei que a piadinha foi infame, mas precisava soltar esta! :-P

• Assim como aconteceu com O Aviador, de Martin Scorsese (cujo material promocional precisou ser substituído por conter um erro na grafia do nome de uma atriz), a divulgação de Ladrão de Diamantes custou um pouco mais além da conta devido a um erro. A rede americana de cinemas AMC firmou uma parceria com a New Line para divulgar o filme em suas salas, com pacotes gigantes de pipoca personalizados com imagens dos personagens. O problema: O nome de Salma Hayek foi escrito “Hayak”. O erro foi corrigido, mas fico imaginando o que devem ter feito com trocentos saquinhos gigantes de pipoca…

• A fantástica casa de praia do Casal Max e Lola nas Bahamas é, na verdade, uma sede de salva-vidas e fica na praia de Sycamore Cove, ao norte de Malibu, na Califórnia.

• Em dado momento do filme, é possível ouvir Maria Rita, a filha de Elis Regina (mas isso ninguém sabe!), cantando o clássico Agora Só Falta Você, originalmente interpretado por Rita Lee.

AFTER THE SUNSET • EUA • 2004
Direção de Brett Ratner • Roteiro de Craig Rosenberg e Paul Zbyszewski
Elenco: Pierce Brosnan, Salma Hayek, Woody Harrelson, Don Cheadle, Naomie Harris, Chris Penn, Mykelti Williamson, Troy Garity.
100 min. • Distribuição: New Line Cinema/PlayArte Pictures.

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