Guardiões da Noite

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 16/11/2005.

Guardiões da Noite (Nochnoy Dozor/NightWatch)

Embora eu não estivesse esperando com taaaanta ansiedade assim (pra ser bem sincero, nem me interessei muito), a galerinha d’A ARCA não pensou duas vezes em escolher a minha pessoa para conferir e dar aqui o parecer sobre Guardiões da Noite (Nochnoy Dozor/Night Watch, 2004), superprodução que se tornou um fenômeno lá fora. Sim, sim, é um suspense que envolve vampiros, guerreiros medievais, criaturas esquisitas, seres amaldiçoados e a velha e boa “eterna luta do bem contra o mal” – e que já faturou “dinheiros e mais dinheiros” em diversos países. A questão é que Guardiões da Noite, como todos aí devem saber, é um filme… russo. E quem conhece o cinema russo, sabe que as produções de lá são bem esquisitas. Ninguém melhor que o camaradinha Zarko aqui para falar de um filme bizarro como este, não? :-D

E não é só isto. Guardiões da Noite é o filme russo de maior sucesso em seu país natal, de todos os tempos. Representa também a transposição para as telas de um cultuado romance por lá, Nochnoy Dozor, de Sergei Lukyanenko. E também é a primeira parte de uma saga épica em três volumes que, na Rússia, é constantemente comparada a O Senhor dos Anéis em termos de “importância cultural”. Exagero? Sei lá, não li ainda, como é que eu vou saber, pô? :-D

O que posso dizer com segurança é que a fita decididamente não é para qualquer espécie de público. Aliás, muitos sairão da sala xingando. Cá entre nós? Guardiões da Noite mais decepcionou do que surpreendeu, na boa. Se você viu o trailer, então, nem precisa gastar dinheiro com o ingresso. Já viu todas as partes legais. :-P

O pior é que o enredo é deveras interessante e tinha tudo pra render um pusta filmaço: ao início do longa, descobrimos que, séculos atrás, as facções dos Guerreiros da Luz e dos Guerreiros das Trevas, naturalmente rivais, decidem estabelecer uma trégua. A conclusão a que eles chegam é a de que, caso continuem guerreando, em pouquíssimo tempo não sobrará ninguém para contar história. Assim, os cabeças de cada grupo escolhem uma equipe de humanos dotados de poderes, chamados de “Os Outros”, para vigiar as facções e garantir que ninguém quebre as regras de paz. Esta equipe é batizada de “Os Guardiões da Noite”.

Só que a coisa não é tão simples assim. Uma profecia prevê o nascimento daquele que representará o ser mais poderoso de todos. Este ser, que pode nascer a qualquer momento, colocará um ponto final na trégua ao escolher um dos lados para defender. No meio disto tudo, o atormentado “outro” Anton (o ator Konstantin Khabensky, popularíssimo na Rússia) questiona sua vida ao fazer amizade com um garoto, que talvez seja o escolhido… Bacana, né?

Sim, o enredo é legal. E não é a única qualidade do longa-metragem. O maior atrativo de Guardiões da Noite é, sem dúvidas, seu estilo. A qualidade técnica dos efeitos visuais e da direção do publicitário Timur Bekmambetov são de encher os olhos; simplesmente não dá pra acreditar que a produção consumiu apenas US$ 4 milhões. Mas então… o que deu errado, afinal? Bem, não diria que é uma questão de “algo fedeu”. Só que Guardiões da Noite deixa muito a desejar em comparação ao sucesso todo que fez e ainda está fazendo por aí, embora isto não signifique muito, pois se popularidade fosse sinônimo de qualidade, Titanic não teria rendido sequer dez reais (!).

Curiosamente, o grande defeito da película é exatamente sua maior qualidade: o visual. Por mais que tudo esteja perfeito e bonito, a estrutura de Guardiões da Noite é praticamente uma salada de TODOS os longas de ação, fantasia e ficção-científica que aportaram recentemente nos cinemas. Resultado: a fita perde sua identidade. Os efeitos são tão supervalorizados que o filme morre quando estão somente os personagens e seus diálogos – diálogos tão “profundos”, por sinal, que certos trechos poderiam ter sido reescritos até pelo meu cachorro, pois ninguém ia notar. :-P.

Outras bolas-foras remetem à enorme duração da fita – 20 minutos a menos não fariam mal a ninguém – e a algumas atuações, em especial a do garotinho Dmitry Martynov, intérprete de Yegor, tão talentoso quanto os astros da novelinha mexicana “miguxa” Malhação. Afe! E aquele troço ainda passa, inacreditável como tem gente que consegue assistir! Mas isto é uma outra história, portanto deixemos para lá. :-)

Enfim, Guardiões da Noite é uma produção que até funciona bem. E independente de suas qualidades ou defeitos, não podemos negar que seu apelo popular e seu sucesso lá fora contribuiu e muito para abrir mais uma porta para o cinema estrangeiro em nossas salas. Yeah, russos RULEIAM! Guardiões da Noite deve ser festejado como uma prova incontestável de que tem tudo para competir em pé de igualdade com os gringos quando o assunto é “cinema de qualidade” – embora como “filme” não mereça levar tantos créditos assim. :-P

Para finalizar, só uma pequena dúvida que insiste em permanecer na minha cabeça: Alguém aí também achou a cambalhota do caminhão totalmente exagerada ou foi só eu mesmo?

CURIOSIDADES:

Guardiões da Noite foi o longa escolhido pela Rússia para representar o país na disputa por uma vaga entre os indicados ao Oscar 2005 de Melhor Filme Estrangeiro.

• A segunda parte de Guardiões da Noite, intitulada Day Watch (Dnevnoy Dozor), está em fase de pós-produção e deverá ser lançada comercialmente no Brasil ainda em 2006. A terceira e última parte da trilogia, ainda sem título definido (e que se chama Dusk Watch na literatura), chegará aos cinemas russos em 2007.

• Além do sentido óbvio, o título norte-americano traz também uma referência ao quadro Nightwatch, de Rembrandt, que pode ser visto de relance no apartamento de Anton em uma seqüência do filme.

• A fita utiliza em sua trilha sonora trechos de algumas composições de Hans Zimmer para Gladiador, de Ridley Scott.

NOCHNOY DOZOR • RUS • 2004
Direção de Timur Bekmambetov • Roteiro de Timur Bekmambetov e Laeta Kalogridis
Baseado no livro “Nochnoy Dozor”, de Sergei Lukyanenko
Elenco: Konstantin Khabensky, Vladimir Menshov, Valeri Zolotukhin, Mariya Poroshina, Galina Tyunina, Yuri Kutsenko, Rimma Markova.
114 min. • Distribuição: Fox Searchlight.

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