Dupla Confusão

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 14/01/2005.

Dupla Confusão (Tais-Toi!)

Nunca ouviu falar deste filme? Ficou cabreiro com o título meio chumbrega aí em cima? Pois é, eu também. Pra dizer a verdade, à primeira vista, pensei até se tratar de um novo “trabalho” do Renato Aragão ou coisa que o valha. Vai saber, né…

Enfim, a realidade é que o sistema de escolha de títulos aqui no Brasil está dando uma mancada atrás da outra, e muitas vezes tem o poder de assassinar a carreira de um longa-metragem que pode até ser muito bom. Enfim, vi o título e pensei: “Jesus, que raios de filme é esse?”, e fiquei ainda mais preocupado quando soube que tratava-se de uma produção francesa. Ou seja: muitas chances de ser um longa até bacana, mas provavelmente ignorado pelo público. Afinal, todos nós sabemos – é uma realidade, não vamos negar – que determinados países sofrem uma tremenda discriminação aqui no Brasil quando o lance é cinema. Principalmente a França, que ostenta uma fama bem negativa de “só produzir coisa chata” – o que é uma bela de uma mentira, na boa!

Pois é, podemos respirar aliviados: não é nenhuma nova fita do Didi Mocó. E também não é nenhum filme chato e paradão. Dupla Confusão (Tais-Toi!, 2003) é o último longa do aclamado diretor francês Francis Veber (do engraçadíssimo O Closet), uma comédia de ação com muitas cenas bacanas de perseguição, situações engraçadas e dois personagens centrais bastante carismáticos interpretando anti-heróis. Ou seja, tudo aquilo que estamos cansados em ver por aí. Contudo, o único elemento que diferencia esta película de tantas outras é o fato de reunir pela primeira vez dois dos maiores ícones do cinema francês: os ótimos Gérard Depardieu (de Cyrano e Asterix e Obélix Contra César) e Jean Reno (de Imensidão Azul e Missão: Impossível). E este detalhe faz a diferença. Fora isto, é apenas um filme. Simples demais, mas ainda um filme.

O fio de história, que já vimos em quinquilhões de outras produções por aí, é mais ou menos assim: Quentin (Depardieu) é um grandalhão truculento, mas muito irreverente e com um coração de ouro, que é preso depois de um assalto e acaba dividindo a cela com o “homem-de-poucos-amigos” Ruby (Reno). Antes de ser preso, Ruby, um assassino profissional metódico e fechadão, esconde uma fortuna que roubou do perigoso Vogel, responsável pelo assassinato de sua namorada Sandra. Quando Quentin conhece Ruby, rapidamente o toma como amigo – contra a vontade do outro, claro. Numa das cenas mais legais de Dupla Confusão, Ruby consegue escapar da cadeia, e arquiteta um plano engenhoso para recuperar o dinheiro roubado e acabar com a raça de Vogel. O problema é a personalidade meio “estranha” do Quentin, que o seguiu e agora vai fazer de tudo para ajudar o seu mais novo amigo (!).

Aí é que está: o termo ajudar de Quentin, um completo tapado com um talento sobrenatural pra se meter em fria, geralmente significa “botar Ruby nas maiores enrascadas”…

Claro que isto é só o início do filme. Mas também é seu enredo inteiro. Não entendeu? Vou explicar. Esta linha de roteiro termina com mais ou menos meia hora de projeção, e o que se segue é uma sucessão de gags e cenas de ação e pancadaria pra produção de ação nenhuma botar defeito. E dá-lhe cenas muito engraçadas de Quentin soltando asneiras – alguns de seus diálogos beiram mesmo o patético, no bom sentido -, Ruby batendo nos vilões com uma delicadeza de peão de obras e perseguições de carros bem-feitas, com uma ressalva para o impressionante trabalho de edição de som do longa. É quase um típico trabalho de Terence Hill e Bud Spencer (alguém aí lembra destes dois indivíduos?).

Mas não vá esperando um grande trabalho. Mesmo contando com um cineasta muito competente à frente do carro, além dos dois protagonistas talentosos por natureza interpretando personagens que conquistam logo nas primeiras cenas, Dupla Confusão nada mais é do que um entretenimento fast-food. Você assiste, se diverte e esquece que viu. Infelizmente, o carisma de Gérard Depardieu e Jean Reno não são suficientes para tornar este trabalho inesquecível. Se você é daqueles que contam as moedinhas para poder ir ao cinema (o ingresso é caro mesmo!), espere até que Dupla Confusão seja lançado em DVD ou exibido na TV aberta – aliás, parece que a telinha é o verdadeiro lugar deste filme. Agora, se você já viu tudo o que tinha que ver nas telonas e não sabe mais o que fazer nestas férias, vai firme e não esqueça do balde de pipocas.

Ao final, Dupla Confusão não machuca ninguém, mesmo elevando à potência máxima a velha fórmula aperfeiçoada por Máquina Mortífera, dos dois antagonistas que são obrigados a se unir para resolver um problema e acabam se tornando amigos. Mas afinal, como já dizia minha vovó: “Antes uma história velha muito bem contada do que uma nova história mal contada”. E quanto ao fato de ser um autêntico produto francês, esqueça; em alguns momentos, o longa é tão americano que só falta os caras soltarem os diálogos em inglês. Então não tem desculpa, meu chapa! Sim, você já viu este filme antes… Mas se é coisa boa, não faz mal ver de novo, oras! :-D

CURIOSIDADES:

• O diretor Francis Veber já trabalhou com Gérard Depardieu em outros quatro longas-metragens. São eles: La Chèvre (1981), Les Compères (1983), Les Fugitifs (1986) e O Closet (2001).

• Veber ainda é o rei das refilmagens americanas: La Chèvre rendeu a versão intitulada É Pura Sorte (1991), com Martin Short e Danny Glover no elenco; Les Fugitifs gerou o fraquíssimo Os Três Fugitivos (1989), com o mesmo diretor e Nick Nolte como protagonista; Les Compères é a primeira versão de Um Dia, Dois Pais (1997), com Billy Crystal e Robin Williams; já O Closet ganhará uma versão ianque (como sempre…) em 2006 pelas mãos da diretora Gurinder Chadha (de Driblando o Destino).

• Pra terminar, Francis Veber também dirigiu o que é considerado um dos maiores clássicos da comédia francesa: Le Jouet (1976), refilmado em 1982 com o título O Brinquedo – sim, aquele filmaço da sessão-da-tarde com o Richard Pryor! Como roteirista, trabalhou no ótimo A Gaiola dos Loucas (1978). Por sinal, também refilmado. Falei que o homem é mestre nos remakes?

TAIS-TOI! • FRA • 2003
Direção de Francis Veber • Roteiro de Francis Veber
Elenco: Gérard Depardieu, Jean Reno, André Dussollier, Jean-Pierre Malo, Richard Berry, Leonor Varela.
88 min. • Distribuição: Europa Filmes.

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