Casa de Areia e Névoa

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 31/10/2004.

Casa de Areia e Névoa (House of Sand and Fog)

Depois de quase nove meses de espera, finalmente o público brazuca têm a oportunidade de conferir o elogiadíssimo Casa de Areia e Névoa (House of Sand and Fog, 2003). Não é difícil entender o porquê desta demora toda. O longa de estréia do cineasta Vadim Perelman é lento, introspectivo e bem doloroso de assistir, o que afastará a maior parte do público. Mas não se engane: Casa de Areia e Névoa é um trabalho excelente. Lento, sim, mas no sentido de dar o tempo certo para as tranformações de cada um dos personagens. Doloroso, sim, para estes mesmos personagens, que descem até o fundo do poço várias vezes durante a projeção. E doloroso para nós, espectadores, que imediatamente compactuamos com cada um deles. E sofremos junto.

Mas já vou avisando: aqueles que curtem filmes acelerados e cheios de adrenalina devem passar bem longe deste aqui. Apesar de o enredo sugerir um thriller psicológico bem nervoso, o que temos aqui é um drama muito pesado com situações controladas a conta-gotas. No entanto, Casa de Areia e Névoa não é menos tenso e explosivo do que qualquer fita de suspense ao melhor estilo Seven – Os Sete Crimes Capitais: o que o roteiro de Vadim Perelman faz com o espectador é torturar aos poucos, para dali a um tempo dar o golpe final. E este golpe é o mais chocante possível. Casa de Areia e Névoa trata, acima de tudo, da luta de duas pessoas por aquilo que consideram certo. Mas nem sempre o que é certo para um é também para outro.

Perelman transforma a tela do cinema num ringue, e o espectador se vê convertido em testemunha ocular da degradação moral e física de duas pessoas à beira de um cataclisma. De um lado do ringue, está Kathy Nicolo (Jennifer Connelly). Kathy é uma ex-viciada em álcool e tabaco que sofre para se manter sóbria. É perturbada por crises de depressão, cortesia do chute que levou do namorado, e amarga um bico como faxineira. Passa os dias na cama, sem conseguir se levantar nem mesmo para abrir suas correspondências. Do outro lado do ringue, está Massoud Amir Behrani (Ben Kingsley), ex-coronel da Polícia Secreta do Irã. Behrani, antes rico e poderoso, se viu obrigado a fugir de seu país natal por conta de um problemaço com as autoridades locais, e agora mora nos EUA com a mulher Nadi (Shohreh Aghdashloo) e o filho adolescente Esmail (Jonathan Ahdout), e vive de subempregos para poder manter o alto estilo de vida adquirido no passado. Kathy e Behrani, duas pessoas pisoteadas pela sociedade, que desejam, acima de tudo, viver com um pouco mais de dignidade.

No centro do ringue, um bem material. Por falta de pagamento de impostos – seguido de um erro burocrático -, Kathy é despejada da casa onde mora, herança de seu falecido pai. A garota passa os dias perambulando pelas ruas, dorme em hotéis e, quando o dinheiro acaba, conta somente com seu carro para se proteger do frio e da névoa que assola as noites da cidade. A tal casa vai à leilão e é comprada por 1/4 do que realmente vale. O novo dono da casa é Behrani. Para Kathy, a casa é o único símbolo de redenção e esperança de sobreviver ao passado que quase a destruiu. Para Behrani, é o primeiro sinal da realização do sonho americano de prosperidade e aceitação.

Quando Kathy toma consciência de que o governo não está preocupado em resolver sua questão, decide reaver a casa de qualquer jeito. E Behrani não se intimidará tão facilmente assim. O confronto, que começa pacificamente, se torna mais agressivo à medida que outros personagens entram na história, como o aparentemente tranqüilão policial Lester Burdon (Ron Eldard), que abraça a causa de Kathy com unhas e dentes. A partir daí, não há limites para a crueldade dos personagens.

No que diz respeito ao aspecto técnico, o maior mérito do longa é seu elenco e diretor. As atuações dos protagonistas são arrasadoras. Ben Kingsley (A Lista de Schindler), no papel do rígido Behrani, justifica tranqüilo a indicação ao Oscar, assim como a iraniana Shohreh Aghdashloo – em seu primeiro papel de destaque no cinemão americano -, que tem um trabalho contido, centrado em expressões e principalmente olhares. Ron Eldard (de Navio Fantasma) sofre uma transformação assustadora no decorrer da fita, com um personagem absolutamente ambíguo. Mas o show é de Jennifer Connelly. A belíssima atriz, oscarizada por Uma Mente Brilhante, prova definitivamente que é uma das melhores de sua geração e entrega aquela que talvez seja a atuação definitiva de sua carreira. Simplesmente não há como não torcer por ela em muitos momentos do filme. Isto é evidente principalmente nas cenas em que Connelly divide com Ben Kingsley. Fantástico! Mas nenhum trabalho de ator seria tão completo se não fosse pela direção de Vadim Perelman.

Casa de Areia e Névoa é um trabalho que, acima de tudo, manipula as emoções do público. Por mais que o espectador simpatize com a causa de um personagem e não do outro, o roteiro logo trata de nos colocar em cima do muro: quando pensamos estar do lado de um, logo este comete um ato que nos faz odiá-lo e passar automaticamente para o outro lado. Aqui, não há herói ou vilão, somente dois seres humanos, como eu e você, providos de sentimentos e propensos a cometer erros. Impossível tentar se manter indiferente à disputa. Se alguém aí é do tipo que mergulha de cabeça no filme (como eu) e estiver pensando em se aventurar a embarcar nesta história, deve desde já se preparar para o turbilhão de sentimentos que o filme causará. E duvido que alguém aí consiga manter os nervos no lugar com o trágico e incômodo final. Talvez o que mais incomode, quando saímos da sala de projeção, é ter consciência de que a maior ameaça ao ser humano ainda é ele mesmo.

CURIOSIDADES:

• O escritor Andre Dubus III, autor do livro em que Casa de Areia e Névoa se inspira, chegou a receber mais de 100 propostas de diversos estúdios para ceder os direitos de adaptação da obra para o cinema.

• O papel de Jennifer Connelly foi inicialmente oferecido a Kate Winslet, que não pôde aceitar por estar envolvida nas filmagens de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças.

• Muitas tomadas sugerem que a ação de Casa de Areia e Névoa se passa na baía de São Francisco. Na verdade, a casa em que grande parte da trama se desenrola fica em Malibu, a quase 400 milhas de distância. Segundo o roteiro, a ação do filme é situada na cidade fictícia de Pacific County, ao norte da Califórnia.

HOUSE OF SAND AND FOG • EUA • 2003
Direção de Vadim Perelman • Roteiro de Vadim Perelman e Shawn Otto
Baseado no livro “House of Sand and Fog”, de Andre Dubus III
Elenco: Jennifer Connelly, Ben Kingsley, Ron Eldard, Frances Fisher, Shohreh Aghdashloo.
126 min. • Distribuição: UIP/DreamWorks SKG.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: