Violação de Privacidade

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 07/04/2005.

Violação de Privacidade (The Final Cut)

No futuro, quase nada mudará em termos de avanços tecnológicos. Pra ser mais exato, o mundo será praticamente idêntico ao que conhecemos hoje, à exceção de uma coisa ou outra. As tatuagens, por exemplo, deixarão de ser meros desenhos na pele para se tornar objetos tridimensionais (!). E uma empresa chamada EyeTech se tornará pioneira no lucrativo ramo de gravação de memórias alheias, para posterior exibição no velório dos donos destas memórias. Hã?

Não, eu não bebi. E não estou ficando louco… ainda. Esta linha acima é uma descrição rápida de como é o futuro vislumbrado pelo bom Violação de Privacidade (The Final Cut, 2004), longa-metragem de estréia do jordaniano Omar Naïm. Bacana, não? Tudo bem, é bizarro, isso sim. Mas ainda assim bacana.

Mais estranho do que imaginar este plot, entretanto, é saber que Violação de Privacidade é uma mescla de drama e ficção-científica cujo protagonista é ninguém menos que Robin Williams (!?). Convenhamos: todos estão carecas de saber que Williams pode ser um ótimo ator dramático, e tanto o subestimado Insônia quanto o ótimo Retratos de uma Obsessão (ambos de 2002) estão aí para provar que nem só de papéis engraçadinhos vive o cara. Mas o cinema de entretenimento está tão acostumado a ver o nome de Robin Williams associado a personagens cômicos – o ator vive “personagens divertidos” até mesmo nos dramas – que chega a ser surreal conceber uma sci-fi com ele. E no caso deste Violação de Privacidade, parece que Williams não acertou a mão totalmente. Eu disse totalmente, porque a fita é legal. Quer dizer, não. Er, bem, é mais ou menos, vai!

O enredo é basicamente assim: neste futuro descrito na primeira linha do artigo, a tal empresa EyeTech fornece um serviço que consiste na inserção de um implante de memória no cérebro do indivíduo ainda em formação no útero da mãe (!). Todas as experiências por qual esta pessoa passa serão gravadas neste chip. Todas, sem exceção. Quando o portador do implante morre, o chip é retirado e um funcionário da EyeTech, chamado “montador”, edita os “melhores momentos” da vida da pessoa em um filme. O tal filme é exibido numa sessão chamada “Rememória”, que subtitui o velório convencional, para em seguida rodar eternamente numa pequena tela instalada na lápide do sujeito. Este serviço é alvo do protesto de um grupo rebelde que defende a tese de que o serviço incita o crime de invasão de privacidade, já que geralmente os donos dos implantes não sabem que sua vida está sendo toda gravada. Bizarro? Imagine, nem um pouquinho… :-D

Quando Violação de Privacidade começa, o montador Alan Hakman (Williams) recebe um implante para editar. Frio, calado e reservado, Hakman é o profissional mais requisitado e respeitado no setor, por ser o único que trabalha com a edição de memórias de “pessoas más” (corruptos, marginais e afins), eliminando qualquer traço ruim da personalidade do elemento e transformando-o num santo. Hakman, como comenta num certo diálogo, acredita ser um “devorador de pecados”, alguém com o poder de absolver os erros dos mortos. A verdade é que o cara vive à sombra de um acontecimento trágico em sua infância, que o traumatizou de tal forma que Hakman não consegue manter um diálogo nem mesmo com sua bisonha namorada Delila (Mira Sorvino, de Mutação, meio deslocada no papel).

Enfim, Hakman recebe uma “rememória” para editar, e este vídeo é de ninguém menos que um dos cabeças da EyeTech – o que lhe traz uma bela dor de cabeça chamada Fletcher (Jim Caviezel, de A Paixão de Cristo, em pequena participação), um perigoso ex-montador e atual líder dos rebeldes, que passa a perseguir Hakman com o intuito de tomar o implante do grandão para si. Afinal, se há alguma podreira que possa incriminar a empresa e fazer com que ela feche as portas, com certeza está gravada naquele chip. Pra piorar ainda mais o caldo, durante a edição da “rememória”, Hakman reconhece numa das imagens alguém que pode estar diretamente ligado ao tal acontecimento macabro de sua juventude.

Para quem lê assim, Violação de Privacidade tem uma ótima história, certo? Sim, tem. O problema todo aqui é o seu desenvolvimento. O que acontece é que o plot central – a gravação das memórias das pessoas – é original, riquíssimo e abre um leque de possibilidades. A hipótese de Hakman encontrar algo que possa envolvê-lo numa caçada de vida ou morte, por exemplo, é fantástica e poderia render um filmão. O roteiro de Omar Naïm, entretanto, segue uma linha mais “puritana” no sentido de não ousar. Além disso, é bem superficial, como se o roteirista tivesse medo de expandir o negócio e perder o controle de sua criação. O público poderá frustrar-se bastante ao assistir Violação de Privacidade, já que o enredo não é nem um pouco mirabolante e não conta com revelações e reviravoltas, que é o que acontece em 9 de cada 10 longas lançados atualmente.

Isso não significa, contudo, que a película seja ruim. Ao contrário; com um roteiro bem amarrado e coerente, produção elegante e interpretações corretas, Violação de Privacidade é um bom filme, que vale uma espiada numa boa. Mas é apenas um bom trabalho, daqueles que, se você não estiver muito ansioso, pode esperar pelo lançamento em DVD, sem problema algum. Na verdade, me soou como um daqueles trabalhos que você assiste uma única vez, concorda que é um bom filme e pronto. O que é uma pena, visto que o fantástico ponto de partida poderia ter rendido uma obra bem significativa. Bem, a única coisa que sei é que não gostaria de rever minhas memórias. Isso implicaria em reviver os momentos em que quase saltei em direção à morte certa, depois da sessão de O Expresso Polar! Acharam que eu tinha superado, é? Que nada, traumas são eternos! :-P

Ei, e já ia me esquecendo de duas coisas: o lance das tatuagens, que citei no início deste artigo, tem uma forte ligação com a história. Se quiser saber, é só assistir ao filme, oras! E por último, o Jim Caviezel com aquela barba dá medo. :-D

CURIOSIDADES:

Violação de Privacidade foi sumariamente ignorado em sua passagem pelos cinemas ianques, não chegando sequer a render US$ 1 milhão; seu caixa fechou em US$ 551,281.

• O roteiro de Violação de Privacidade ganhou o prêmio da categoria no Festival de Deauville, na França. Neste mesmo festival, o longa foi indicado ao prêmio máximo, perdendo para o excelente Maria Cheia de Graça, de Joshua Marston.

• O filme de Omar Naïm também foi indicado ao Urso de Ouro em Berlim em 2004, onde disputou o prêmio com fitas conceituadíssimas como Monster – Desejo Assassino, que rendeu o Oscar de Melhor Atriz a Charlize Theron; O Abraço Partido, drama argentino que fez muito sucesso no Rio e em São Paulo no final do ano passado; Confidências Muito Íntimas, do cultuado cineasta francês Patrice Leconte; e Antes do Pôr-do-Sol, elogiado drama dirigido por Richard Linklater (A Scanner Darkly).

• Um ano e dois meses. É o tempo que levou para estrear por aqui, desde sua estréia em solo gringo (entrou em cartaz nos Estados Unidos em Fevereiro de 2004). Brincadeira, não?

THE FINAL CUT • EUA/CAN/ALE • 2004
Direção de Omar Naïm • Roteiro de Omar Naïm
Elenco: Robin Williams, Mira Sorvino, Mim Kuzyk, Stephanie Romanov, Brendan Fletcher e Jim Caviezel.
105 min. • Distribuição: Lions Gate/PlayArte Pictures.

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