Sideways – Entre Umas e Outras

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 08/11/2004.

Sideways - Entre Umas e Outras

Alguns filmes, por mais simples que sejam em questão de enredo, cenários e efeitos visuais, têm os culhões de mexer com o público. Aliás, alguns não precisam de nada disso, só mesmo daquela velha ideologia imortalizada pelo cineasta brazuca Glauber Rocha, “uma câmera na mão e uma idéia na cabeça”. Os filmes de Alexander Payne são assim. O cineasta norte-americano não utiliza nenhuma técnica inovadora e raramente faz uso de algum grande astro em suas produções, e mesmo assim só faz filmão. Uma pena que seus trabalhos não conseguem atingir metade do público que mereciam por conta disso.

Acostumado a dissecar temas polêmicos e universais com roteiros aparentemente simplistas e cômicos, Alexander Payne já virou de cabeça pra baixo a vida de Laura Dern no meio de uma discussão pró e anti-aborto (Ruth em Questão, 1996), botou Matthew Broderick e Reese Whiterspoon em pé de guerra por conta de uma campanha política-escolar (Eleição, 1999) e desenvolveu uma insólita amizade entre Jack Nicholson e um menino órfão da Tanzânia (As Confissões de Schmidt, 2002). Em Sideways – Entre Umas e Outras (Sideways, 2004), seu novo trabalho, o roteiro de Payne – escrito em parceria com Jim Taylor, seu colaborador habitual – não traz nenhum enredo subliminar. Ao contrário, é a história mais simples e direta que o diretor nos traz. E provavelmente, seu melhor filme. Talvez, digo numa boa, um dos melhores filmes do ano.

Em Sideways, não há exatamente uma história com começo, meio e fim. Há uma situação corriqueira e absurdamente comum que serve de palco para a dissertação de uma amizade regada violentamente a sonhos dilacerados, solidão, desilusões e… vinho tinto e branco. Logo no início do longa, somos apresentados a Miles (Paul Giamatti, excelente) e Jack (Thomas Haden Church). Miles é um fracassado e recém-divorciado professor de língua inglesa em um colégio secundário em Los Angeles, e Jack é um ex-galã da TV e atualmente ator de comerciais. Os dois são grandes amigos, mas os caminhos da carreira e da vida pessoal de cada um tomaram rumos muito diferentes, causando um distanciamento considerável.

Logo nas primeiras cenas de Sideways, Miles e Jack embarcam numa viagem de carro. O destino é a pequena cidade de Santa Ynez, na Califórnia, conhecida nos states como a “capital do vinho”. Para cada um, o passeio tem um significado: Miles é um expert em vinhos, capaz de relacionar os ingredientes e até o ano de fabricação apenas pelo seu aroma, e quer tentar relaxar um pouco enquanto não recebe uma resposta de uma editora que pode vir ou não a publicar seu primeiro (e enorme) romance; Jack se casará na semana seguinte, e acredita que a viagem é a oportunidade ideal para viver intensamente seus últimos sete dias de solteiro (leia-se: o cara quer transar com a primeira garota que aparecer em sua frente). Acima de tudo, ambos querem reanimar a amizade meio que esfriada com o tempo.

Até os primeiros trinta minutos do filme, a rotina de Miles e Jack segue sem grandes novidades, com visitas às mais belas paisagens de plantações de uva e informações técnicas para a fabricação de um bom vinho. As primeiras mudanças acontecem com a chegada em Santa Ynez: Miles reencontra uma velha amiga, a garçonete Maya (a belíssima Virginia Madsen), agora uma especialista em vinhos, e descobre que nutre por ela muito mais do que uma mera amizade, mas é covarde demais pra cutucar este sentimento; e Jack conhece e se sente imediatamente atraído pela provadora e mãe solteira Stephanie (Sandra Oh), com quem acaba tendo um “rolinho” – sem que ela tome conhecimento, óbvio, de que o cara está preste a ser “encoleirado”.

A amizade entre Miles e Jack é posta em cheque quando o segundo revela ao primeiro que tenciona desistir do casamento… faltando três dias para o enlace. O passeio de sete dias, que deveria ser apenas um entretenimento para esfriar a cabeça, detona uma bela duma crise de meia-idade em ambos, e termina por se tornar uma viagem de auto-conhecimento e auto-análise tanto para o escritor quanto para o ator – e para a platéia, também!

Já que tudo é tão simples, o que há, afinal, de tão especial assim em Sideways? Bem, o roteiro é um primor em diálogos ácidos e cômicos e situações bem amarradas. Ajuda, e muito, as atuações inspiradíssimas do quarteto central. O trajeto de Miles e Jack acaba se tornando universal: não é difícil o público se identificar com qualquer uma das situações pelo qual as personagens passam. E a trilha sonora fantástica do inglês Rolfe Kent (de Sexta-Feira Muito Louca) vai parar na estante de muita gente, inclusive da minha, na ocasião do lançamento em CD, cortesia das deliciosas melodias que rolam ao fundo de quase 100% da fita.

Mas talvez o grande trunfo de Sideways seja a facilidade que possui em retratar o típico “gente como a gente” e dizer muito com tão pouco: o longa emociona, diverte, inspira e deixa o espectador com um belo de um sorriso no rosto ao final da sessão. E tudo isso com atores de verdade no lugar de astros, sem a necessidade de efeitos visuais ou pirotecnia, e despejando na telona casos comuns, com pessoas comuns, que poderiam ser qualquer um de nós. E quando chega a tão esperada segunda chance para as personagens, é confortante saber que nós também podemos ter a nossa segunda chance. Basta se mexer pra isto. :-)

CURIOSIDADES:

• Paul Giamatti iniciou sua carreira em 1990 e já possui mais de 40 filmes em seu currículo. O ator participou de O Mundo de Andy, de Milos Forman, aquele que conta a história de Andy Kaufman. Mas seu nome não consta nos créditos. Ele faz o papel do alter-ego de Andy, o insuportável Tony Clifton. Seu nome consta nos créditos do longa como Tony Clifton mesmo – uma brincadeira com a mania de Kaufman em afirmar que Clifton, no caso ele mesmo, era uma pessoa à parte.

• Os vinhos citados ao longo da projeção de Sideways são raríssimos e fazem parte da coleção pessoal de Alexander Payne que, assim como o personagem Miles, também é um amante inveterado desta espécie de bebida.

• As magníficas ilustrações que enfeitam tanto o cartaz original quanto o site oficial são assinadas pelo conceituado artista Robert Neubecker, cujo trabalho é freqüentemente usado por megaempresas como Microsoft, NYTimes, Disney, Citibank, entre outras.

SIDEWAYS • EUA • 2004
Direção de Alexander Payne • Roteiro de Alexander Payne e Jim Taylor
Baseado no livro de Rex Pickett
Elenco: Paul Giamatti, Thomas Haden Church, Virginia Madsen, Sandra Oh.
123 min. • Distribuição: Fox Searchlight.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: