Perfume – A História de um Assassino

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 22/01/2007.

Perfume - A História de um Assassino (Perfume: The Story of a Murderer)

Poucos sabem, mas Perfume – A História de um Assassino (Perfume: The Story of a Murderer, 2006), que finalmente chega aos cinemas brasileiros, não é apenas um filme de suspense; é um filme de suspense baseado em um conceituadíssimo romance alemão homônimo escrito por Patrick Süskind em 1985, que vendeu mais de 15 milhões de cópias pelo mundo inteiro e já foi traduzido em mais de 45 idiomas. É também um filme de suspense que demorou quase 20 anos para ser adaptado para o cinema, e olhe que a procura foi grande, muito grande; o problema foi com relação aos direitos autorais mesmo – mais detalhes sobre isso, favor consultar as curiosidades logo abaixo, tá bão? ;-)

Enfim, como toda e qualquer obra literária/quadrinística (esta palavra existe?) que é adaptada às telonas, era de se esperar que a produção fosse aguardada com muito carinho, amor e ansiedade pelos fãs nerds da história – infelizmente, não consegui encontrar uma edição do livro para ler antes de sua chegada aos nossos cinemas, então não sei dizer se tenho potencial para ser mais um destes fãs obcecados, fazendo parte daquele clubinho seleto da qual são membros (ui!) fundadores os senhores Kaickull e Frank Black, duas figuraças que marcam presença constantemente na tal Voz dos Nerds… e que também lotaram minha caixa de e-mails para saber quando raios Perfume, o filme, chegaria às salas brazucas. Pois é, chegou! Estão contentes??? :-D

Então, vamos esclarecer uma coisinha antes de iniciar esta crítica: a resenha do Zarkolino aqui é a resenha de um fulano que não leu o romance e não fazia idéia do que Perfume abordava até chegar ao cinema e ver a película – e nós sabemos muito bem como a opinião de alguém que não teve acesso algum ao livro pode ser bem diferente da opinião de alguém que conhece a obra de cor e salteado. Sei que os fãs do livro curtiram pacas, isso posso dizer. Por outro lado, não creio que meu “estado leigo” com relação a Perfume influencie tanto assim, até mesmo porque tratam-se de duas mídias totalmente diferentes, literatura e cinema. Às vezes, uma história perfeita no papel pode se tornar um fiasco na telona, ou vice versa.

Dizer que Perfume é um destes casos, é um exagero tremendo. Mesmo. Mas também não dá pra dizer que estamos falando de uma obra-prima mais que perfeita dos anais da indústria cinematográfica. Definitivamente, Perfume não é um óóóóóótimo trabalho enquanto cinema; é um filme estranho, surreal prá cacete, ora lento ora genial, que tem seus (vários) altos e (alguns) baixos. Comete alguns erros, mas também acerta muito. Tem pontos falhos, mas também é lotado de coisas muito bacanas. Aliás, durante a projeção, me lembrei muito da bisonha sci-fi Violação de Privacidade – não, um não tem nada a ver com o outro, mas assim como a ficção estrelada por Robin Williams, Perfume é legal e não te decepciona, mas não é aquele tipo de trabalho que te instiga a querer assistir mais de uma vez, a querer ter o DVD em casa. O caldo fica ainda mais grosso para quem cair na sala de cinema esperando um thriller movimentado ou dentro dos padrões estabelecidos pela nossa querida Hollywood.

Na verdade, Perfume não é o tipo de longa que merece obrigatoriamente uma visita ao cinema. Sinceramente, acho que a fita melhorará, e MUITO, na telinha da TV.

A história, ambientada na França do século XVIII, começa com o nascimento de um bebê rejeitado pela mãe (pelo amor de Deus, prestem atenção nesta cena!), que viria a se chamar Jean-Baptiste Grenouille (Ben Whishaw). Estamos falando de um sujeito especial: embora tenha nascido com uma bizarra ausência de odor, ou seja, não tem cheiro de nada (!), Grenouille descobre ainda na infância que é capaz de sentir de longe e identificar até mesmo os cheiros mais imperceptíveis, cortesia de seu olfato ultra-mega-hiper-superdesenvolvido. Grenouille é um cara que levou muita rasteira e é constantemente esnobado tanto pela burguesia quanto pela própria plebe. Sem problemas: sua capacidade de captar e identificar qualquer espécie de odor, por mais distante que este esteja, compensa sua vida difícil de funcionário-quase-escravo em uma fábrica de couros.

É mais ou menos nesta época que Grenouille descobre a fonte da mais perfeita das fragrâncias: o corpo feminino. É nesta época em que ele aproxima-se de uma vendedora de frutas e, embebedado pelo suave perfume exalado pela jovem, acaba por matá-la sem querer. Quando consegue um emprego na perfumaria do outrora famoso e atualmente decadente Giuseppe Baldini (Dustin Hoffman), Grenouille entende que é só uma questão de tempo até se aperfeiçoar na arte da confecção de perfumes… e concluir seu plano: extrair o aroma natural das mulheres mais belas que cruzar seu caminho para fazer essências que, unidas, formarão um perfume supremo, capaz de fazer seu usuário sentir-se amado e desejado por todos. Claro que, para concluir este plano, Grenouille se transformará em um serial killer e amontoará uma quantidade considerável de corpos.

Aí é que tá: a história é nada menos que excelente, e não duvido que o romance seja, no mínimo, hipnotizante. Só que não é preciso conhecer o livro para sacar que um pouco dessa mágica se perde na adaptação cinematográfica. Para citar um exemplo, a complexidade do personagem central é apagada em certos momentos pela péssima mania do quase estreante Ben Whishaw (que viveu Keith Richards no bacanésimo Stoned, sobre os Rolling Stones) de aplicar aquela mesma expressão de “porta”. O cara até se esforça, mas um papel tão complicado merecia alguém mais experiente para defendê-lo. Por sinal, um grande defeito de Perfume, a meu ver, é a fraca escolha do elenco: à exceção de Dustin Hoffman (o perfumista) e Alan Rickman (o Sr. Antoine, pai do maior objeto de desejo de Grenouille), que como sempre entregam interpretações dedicadas, os outros só deixam a desejar, principalmente Rachel Hurd-Wood (a Wendy de Peter Pan), que é uma gracinha mas transmite tanto sentimento quanto a Super Vicky (!). E olhe que o papel da ruivinha é importantíssimo para o desenvolvimento do enredo.

Para se envolver com os personagens, é difícil, viu? Precisa de um pouquinho de esforço.

Talvez o ponto falho seja mesmo a certa superficialidade na direção do alemão Tom Tykwer. Aliás, digo logo que, se a única referência que você tem do indivíduo é a sensacional fita-de-ação-ligada-em-220 Corra Lola Corra (1998), fuja do cinema – Perfume segue a linha mais intimista de Paraíso (2002) e A Princesa e o Guerreiro (2000). Só que aqui, parece que Tykwer não soube captar toda a subjetividade da história. Ele entrega cenas memoráveis, como as “maldições” que assolam as pessoas que convivem diretamente com Grenouille e o clímax do filme, desde já uma das conclusões mais geniais (e absurdamente surreais) do ano. Em muitos momentos da projeção, entretanto, Tykwer não consegue trabalhar o intimismo e as metáforas da história sem deixar a fita meio arrastada. Em poucos momentos, chega a cansar.

Mas como disse lá em cima, há os pontos bons e ruins. E os muitos acertos de Perfume compensam as falhas numa boa. A ótima reconstituição de época, a excelente fotografia, a belíssima trilha sonora e o climão de suspense sempre presente valem o ingresso. E o final… UAU, QUE FINAL É AQUELE? Sério, a trama é tão bem finalizada, termina de forma tão original, que dá gosto, viu? Mas é tudo altamente esquisito, fique avisado. No mais, Perfume é um belo trabalho sim, mas para quem não é familiarizado com o romance, como eu, é um trabalho para se ver uma vez e pronto – infelizmente, já que o livro, pelo pouco mostrado no filme, tinha cacife suficiente para render um filmaço com “F” maiúsculo e em negrito, daqueles de fazer qualquer um catar o queixo do chão antes de sair do cinema. Nas mãos de um cineasta mais ousado e mais experiente, certamente seria convertido em um clássico. Do jeito que está, QUASE honra sua fonte. Ei, eu disse QUASE, tá?

Mas que deu uma pusta de uma senhora vontade de ler este livro… Ah, se deu… :-D

CURIOSIDADES:

• Por muitos anos, o autor Patrick Süskind, conhecido por ser extremamente detalhista em suas narrativas, recusou-se a vender os direitos de seu romance O Perfume – e olhe que a procura existe desde o lançamento da obra, em 1985. A desesperada busca de uma série de produtores pelos direitos de O Perfume só serviu de munição a Süskind: sarrista que só, o sujeito não só não vendeu os direitos como também aproveitou as investidas mal-sucedidas dos produtores, em especial de Bernd Eichinger, para satirizar a indústria cinematográfica da Alemanha ao escrever o roteiro da comédia Rossini (1997), que conta a história de um escritor que criou um livro de sucesso e que começa a ser perseguido por indivíduos interessados em adaptá-lo…

• Depois de muita insistência, em 2001, Süskind rendeu-se a Eichinger e vendeu sua obra. Saiu caro: 10 milhões de euros, o que equivale a aproximadamente 26,9 milhões de reais.

• Por anos, Ridley Scott reservou um espaço em sua agenda para filmar O Perfume. Tim Burton também foi considerado, mas nunca disse uma palavra a respeito do projeto. Martin Scorsese e Milos Forman sempre declararam seus desejos em assumir a direção do filme. Outro ser humano bem desconhecido, aquele tal de Stanley Kubrick, também pensou em filmá-lo, mas desistiu ao tentar adaptar o romance; na época, Kubrick declarou que “não se sentia capaz de rodar uma história tão infilmável”.

PERFUME: THE STORY OF A MURDERER • FRA/ESP/ALE • 2006
Direção de Tom Tykwer • Roteiro de Tom Tykwer, Andrew Birkin, Bernd Eichinger
Baseado no romance “Das Parfum: Die Geschichte eines Mörders”, de Patrick Süskind
Elenco: Ben Whishaw, Dustin Hoffman, Rachel Hurd-Wood, Alan Rickman, Karoline Herfurth, Corinna Harfouch • Narração: John Hurt
127 min. • Distribuição: California Filmes.

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