Pacto Maldito

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 31/12/2005.

Pacto Maldito (Mean Creek)

Sam, garoto tímido e reservado, sofre o diabo nas mãos do violento e insuportável George, valentão do colégio onde estuda, em Oregon. Contrário à violência, Sam não sabe mais a quem recorrer, já que os professores nada fazem a não ser deixar George de castigo por um ou dois dias. A pretendente de Sam, Millie, acredita que o tempo se encarregará de resolver a questão. Rocky, irmão mais velho do garoto, tem consciência de que nada pode fazer (George é bem maior que ele), mas defende que é necessário dar o troco. Cheio de dúvidas, Sam tem uma única certeza: isto deve acabar.

A premissa descrita acima não é uma novidade no cinema. Vários longas já trataram o bullying (leia mais sobre bullying nas curiosidades abaixo), tanto como tema central quanto como pano de fundo para outros enredos – um dos mais recentes, aliás, é o tenebroso Bully, da tentativa de cineasta e pedófilo nas horas vagas Larry Clark. Então, o que torna o obscuro e semi-desconhecido drama independente Pacto Maldito (Mean Creek, 2004) tão especial assim?

A culpa é exclusivamente de um sujeitinho chamado Jacob Aaron Estes, diretor de curtas que aventura-se pela primeira vez no comando de longas-metragens com Pacto Maldito. Embora a originalidade e a bizarrice dos temas escolhidos no circuito indie sejam duas de suas principais características, este elogiado trabalho não tem nada de original. Durante a projeção, é muito fácil identificar elementos gritantes de fitas como Conta Comigo, A Inocência do Primeiro Amor (quem lembra desta jóia da Sessão da Tarde levanta o dedo!), Sobre Meninos e Lobos e o ultra-clássico suspense psicológico Amargo Pesadelo. Aliás, quase 100% da estrutura do roteiro de Pacto Maldito é idêntica, idêntica MESMO, à trama de Bully. E por incrível que pareça, os mais atentos matarão a história inteira da película, inclusive sua conclusão, só de ler uma linha de sinopse ou assistir ao trailer – de fato, o preview ENTREGA a grande reviravolta do filme, mas não se preocupem, não é o elemento mais importante da história.

Então, o que acontece? Bem, o fato é que o diretor Jacob Aaron Estes demonstra uma maturidade tão grande tanto no desenvolvimento do roteiro quanto na direção dos excelentes atores que possui, que é impossível o espectador sair de uma sessão de Pacto Maldito sem estar atônito, impressionado e totalmente destruído com o que viu. Se você, caro leitor, adorava sacanear seus amigos nos tempos de escola, então, prepare-se para perder um tempinho pensando neste filme. Sério. Se você duvida, clique aqui e assista ao trailer. É de dar medo, garanto.

Então, falemos do enredo: cansado da situação, Sam (Rory Culkin) entrega a seu irmão Rocky (Trevor Morgan) tudo o que passa nas mãos de George (Josh Peck). Revoltado com a posição do irmão mais novo e louco para descarregar a tensão, Rocky bola um plano e, para colocá-lo em prática, convoca seus amigos Clyde (Ryan Kelley, de Smallville) e Marty (Scott Mechlowicz, de Eurotrip – Passaporte para a Confusão). O introspectivo Clyde tem seus motivos pessoais para querer se vingar de George, enquanto Marty, desajustado por natureza, está lá apenas por curtição.

Um tempinho depois, Rocky convida George para um passeio de barco em um riacho afastado da cidade, num sábado à tarde, em comemoração ao aniversário de Sam. O valentão, que não tem amigos, aceita de imediato. Além dos três, estarão lá Clyde, Marty e também Millie (Carly Schroeder). No caminho, Sam revela a Millie a real razão do passeio: não há aniversário algum, e sim um engenhoso esquema para humilhar George e fazê-lo finalmente parar de perturbar qualquer um que atravesse seu caminho. Só que, durante o passeio, Sam percebe que George nada mais é do que um garoto desesperado para fazer parte do grupinho; um cara que até tem boas intenções, mas não sabe manifestá-las. A rápida convivência faz com que George desperte pena em Sam e, mais tarde, simpatia.

Millie, que repudiou a idéia de vingança desde o início, quer abortar o plano. Sam também. Aos poucos, Clyde e Rocky convencem-se do mesmo. Mas Marty quer ir até o fim. O lance caminha em direção a uma tragédia.

A esta altura, você certamente já tem uma idéia de como a história termina. E pode acreditar, você está certo. Isto não diz nada: o desenrolar de Pacto Maldito, mesmo previsível, não deixa de ser marcante. E isto se deve a dois elementos: o primeiro é a atuação do excelente sexteto de atores centrais, que passam quase o tempo todo sozinhos em cena e demonstram um talento superior a muito astro hollywoodiano espalhado por aí – com destaque para o ótimo trabalho de Scott Mechlowicz como o explosivo Marty. Executivos de estúdios, fiquem de olho neste cara! :-) Uma curiosidade: havia vários fóruns gringos espalhados pela net que pediam a demissão de Hayden Christensen e a contratação de Mechlowicz para o papel de Darth Vader em Star Wars – Episódio III: A Vingança dos Sith. Infelizmente, o titio Lucas não acatou à idéia. :-P

O segundo elemento é, sem dúvidas, o promissor roteiro de Jacob Estes. O script não se preocupa em estereotipar personagens, tomar partido de algum deles ou justificar seus atos; os seis garotos são apenas jovens cheios de dúvidas e traumas que precisam, em certos momentos, tomar decisões que talvez não sejam as certas. Não há mocinho ou bandido, só um garoto que conta mentiras deslavadas para conquistar as pessoas e bate em meninos menores para sanar sua carência de afeto; outro que não sabe lidar com o fato de ser filho de um casal gay masculino; outro que carrega o trauma de ser testemunha do violento suicídio do pai; e outro que não mede esforços e conseqüências para demonstrar o amor que sente pelo irmão menor. Manter um distanciamento da ação em si e apresentar seus personagens como pessoas comuns são os maiores trunfos da fita, já que não resta nada ao espectador além da terrível e incômoda sensação de impotência.

Sim, há ainda uma série de fatores que contribuem para o grande resultado final de Pacto Maldito, como a bela trilha sonora da fantástica dupla Tomandandy e a desoladora fotografia de Sharone Meir, que submerge a película em cenas escuras no último terço – uma bela metáfora para o problemão que os garotos enfrentam em dado trecho.

Mas não há sequer como pensar nisto quando as luzes da sala de projeção acendem-se e o créditos finais rolam pela tela. Pacto Maldito, assim como o neo-clássico Réquiem para um Sonho, é um daqueles filmes essenciais que deveriam ter sua exibição obrigatória em qualquer instituição de ensino – e que não se preocupam em incitar o público a algo ou apontar o certo e o errado, mas apresentam uma conseqüência e dão ao espectador o direito de escolha, oferecendo uma resposta para aqueles que porventura estejam dispostos a enxergá-la. :-)

CURIOSIDADES:

• O website governamental bullying.com.br dá a seguinte definição para o termo bullying, que não possui tradução em português: “(a expressão) compreende todas as formas de atitudes agressivas, intencionais e repetidas, que ocorrem sem motivação evidente, adotadas por um ou mais estudantes contra outro(s), causando dor e angústia, e executadas dentro de uma relação desigual de poder”. Sofrer bullying é ser vítima continuada de chacotas, deboches, intimidações e brincadeiras de mau gosto por não se enquadrar em estereótipos de altura, peso, idade, sexo, fisionomia, etc. O bullying é considerado um problema grave e por enquanto sem solução. Já houve casos de morte por conta disto.

• Em certo momento da fita, o personagem de Scott Mechlowicz treina tiro ao alvo. Para se concentrar, repete para si mesmo: “Não enche o saco, sr. Estes; não enche o saco, sra. Johnson; não enche o saco, sr. Shaham”. Nada é dito, mas é evidente que tratam-se de professores de Marty; os nomes usados referem-se a membros da equipe técnica do longa. Em outra sequência, Rocky conta que tem uma fantasia sexual com uma certa Susan Johnson. Este é o nome da produtora de Pacto Maldito.

• Josh Peck, que interpreta o “vilão” George, é um velho conhecido dos freqüentadores assíduos do canal infantil Nickelodeon: ele é um dos astros do engraçado seriado cômico Drake & Josh, um dos programas mais populares da emissora.

• Rory Culkin, um dos milhões de irmãos de Macaulay Culkin (!), ganhou destaque nas telonas ao viver o asmático rebento de Mel Gibson em Sinais, de M. Night Shyamalan; Trevor Morgan, intérprete de Rocky, também estreou no cinema em uma fita de Shyamalan: ele é o garotinho-modelo que inferniza a vida de Haley Joel Osment em O Sexto Sentido. Morgan também atuou em Jurassic Park III, como o filho de William H. Macy e Téa Leoni.

• A bela Carly Schroeder, de apenas 15 anos, é dubladora profissional desde os 8 anos. A atriz dublou várias vozes de Babe, o Porquinho Atrapalhado na Cidade e Toy Story 2. Schroeder tinha um papel fixo no seriado adolescente Lizzie McGuire, estrelado pela chata da Hilary Duff. E não, ela não é a garotinha do Poltergeist, tá? :-D

MEAN CREEK • EUA • 2004
Direção de Jacob Aaron Estes • Roteiro de Jacob Aaron Estes
Elenco: Rory Culkin, Ryan Kelley, Scott Mechlowicz, Trevor Morgan, Josh Peck, Carly Schroeder.
87 min. • Distribuição: Paramount.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: