O Segredo de Vera Drake

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 19/03/2005.

O Segredo de Vera Drake

Semanas atrás, entrei numa discussão acirrada com alguns amigos. O assunto: Ray (2004). O motivo: enquanto todos endeusavam o belo trabalho do diretor Taylor Hackford, este que vos fala chegou no meio da rodinha e soltou a bucha: “Se não fosse o Jamie Foxx, sei não…!”. Pois bem, foi o que bastou para que eu saísse correndo debaixo de uma chuva de bolinhas de papel amassado. Mas antes que qualquer um aí faça um bonequinho vudu com meu rosto e cubra o pobre coitado de alfinetes, preciso explicar o que quis dizer com este comentário: acho Ray, o filme, bom pra cacete. Mas, a meu ver, o trabalho ganha (muita) força graças à interpretação de Foxx. Se fosse qualquer outro ator ali no papel de Ray Charles, a fita não seria tão tocante quanto é com o cara. Experimenta colocar ali um Cuba Gooding Jr. ou até mesmo um Marlon Wayans pra você ver o que acontece! :-P

É o que ocorre também com O Segredo de Vera Drake (Vera Drake, 2004), último filme dirigido pelo britânico Mike Leigh – cineasta responsável pelos cultuados Segredos e Mentiras (1996) e Topsy-Turvy, o Espetáculo (1999). Este longa-metragem inglês é simplesmente ótimo. Entretanto, definitivamente não seria a mesma coisa se não contasse com a impressionante atuação de Imelda Staunton (Shakespeare Apaixonado), indicada ao Oscar 2005 por este papel. Difícil imaginar outra pessoa. Aliás, digo tranqüilamente que talvez não houvesse outra atriz capaz de se entregar a este polêmico e ingrato papel com a mesma intensidade que Staunton se entregou. É, o negócio é de louco mesmo! Não à toa, O Segredo de Vera Drake levou pra casa no ano passado os dois prêmios do Festival de Veneza que lhe cabiam: Melhor Filme e Melhor Atriz. E como se não bastasse, o enredo – de autoria do próprio Mike Leigh – é excelente e nos deixa com um sufocante nó na garganta. O Segredo de Vera Drake é um exercício de direção e atuação que merece e deve ser descoberto.

Mas antes, uma ressalva: provavelmente, muitos assistirão ao longa – quer dizer, nem tantos, já que O Segredo de Vera Drake é um produto “de arte” (cult, eu?) cuja exibição provavelmente será restrita às grandes metrópoles – e não entenderão de forma alguma onde está a “grande atuação” de Imelda Staunton ali. É poque sua personagem é composta de olhares, de expressões quase imperceptíveis, de mudanças mínimas na tonalidade de voz. Ou seja, a atriz compõe Vera minunciosamente, nos pequenos detalhes, deixando de lado qualquer exagero gestual. Portanto, para que o espectador testemunhe o trabalho magistral de Staunton, é necessário embarcar pra valer na fita. Processo este, já aviso desde agora, que será muito, mas muito doloroso mesmo. Por que “doloroso”? Bem, porque a interpretação da inglesa deixa o público num belo dum mato sem cachorro.

Bem, a tal da personagem-título é uma senhora cinqüentona que vive no subúrbio de Londres nos anos 50. Vera mora com o amoroso marido, o mecânico Stan (Phil Davis), e os filhos já adultos, o carismático Sid (Daniel Mays) e a tímida e totalmente introvertida Ethel (Alex Kelly). Família pobre, mas feliz e calorosa ao extremo. A bondosa e prestativa Vera é faxineira em casas de ricaços e ainda arruma um tempinho para cuidar da mãe doente e ajudar Ethel a encoleirar um bom partido, no caso o também tímido e pobretão Reg (Eddie Marsan, um excelente ator). A rotina dos Drake segue tranqüila, com Vera sempre ajudando a quem precisa. Tá, e o que há de doloroso nisso?

Acontece que lá pelos quarenta minutos de projeção, descobrimos que Vera Drake, além de ser tudo isso aí descrito no parágrafo acima, esconde a macabra faceta de uma especialista em abortos. Aí é que está a questão: Vera não é uma louca psicopata que, longe de tudo e de todos, faz cara de má e solta gargalhadas malignas. Ela é realmente a senhora bondosa que a platéia conhecia até então, e só faz o que faz única e exclusivamente para ajudar as mulheres que adquirem uma gravidez indesejada e não têm condições de manter a criança, nem pagar um médico pra resolver o pepino. Tanto que Vera não cobra dinheiro algum, tarefa feita na surdina pela asquerosa Lily (Ruth Sheen), e sequer consegue pronunciar a palavra “aborto”; quando é questionada sobre o que faz, ela apenas diz: “Eu ajudo as meninas”. Vera Drake sabe que o que faz é errado legalmente falando, mas sua bondade e seu amor ao próximo passam por cima de qualquer coisa, e seu sorriso de satisfação em ajudar a quem necessita nunca sai do rosto.

Até este ponto, tudo transcorre como um drama bonito, sem nada marcante.

E então, tudo desaba, principalmente para a platéia: quando um dos “processos” quase causa a morte da mãe – uma garota cuja família é bem influente na região -, uma rigorosa investigação policial conduz as autoridades locais à Vera, o que causa a total desestruturação da família (que não tinha conhecimento algum deste lado macabro da matriarca). Os Drake, infelizmente, nunca mais voltarão a sorrir. Uma cena em particular chega a ser pior do que muito filme de terror por aí: quando Vera, em meio a uma reunião familiar, vê sua casa ser invadida pelos policiais, a câmera fixa o olhar em sua expressão, que sutilmente passa da alegria ao mais puro terror – e isso, quase sem movimentar o rosto ou mexer os olhos! – e culmina na angustiante fase dita pela senhora: “Eu sei por que vocês estão aqui”. Caraco, é de gelar a espinha! E um comentário pessoal: é em momentos assim que percebemos como a atuação é importante, já que Reencarnação tentou fazer o mesmo (na tal seqüência em que a câmera passa meia hora no rosto da Nicole Kidman) e tudo o que sentimos neste caso é sono!

Pois é, todos nós sabemos que este lance de aborto é BEEEM complicado. Uns defendem, outros condenam. E o grande “quê” do roteiro de Leigh é justamente não ousar chegar perto disso: o cara só apresenta a história e deixa que cada espectador tire suas próprias conclusões. É isso que dói: é terrível você presenciar os acontecimentos, ter um ponto de vista e não ter o poder de interferir na questão. Então se preparem para revoltar-se com algumas possíveis sacanagens que a personagem sofre. Cortesia, claro, da excelente atuação de Imelda Staunton, que humaniza a personagem de tal maneira que, por mais que concordemos que ela não é nada além de uma criminosa do ponto de vista judicial, seríamos capazes de nos humilhar para livrar Vera Drake de seu iminente e inevitável destino. Afinal, atuação é isso, despertar sentimentos na platéia! E olhem que ela não precisou emagrecer 30 quilos, contracenar com uma bola e nem se tranformar num boneco de CGI sem expressão pra isso. Quem sabe fazer, faz de qualquer jeito. E ponto final.

O mais cruel de tudo, a meu ver, é presenciar a descida aos infernos de Vera Drake e, paralelo a isto, acompanhar uma subtrama sobre uma menina rica que engravida e, por ser de família rica, é encaminhada a uma clínica especializada em abortos, totalmente “legalizada” e impune, comandada por um médico rico e mantida por freiras. Um tapão violento na cara da hipócrita sociedade atual, e que nos faz lembrar de como este mundo, em certos momentos, é um lugar nojento pra se viver.

Depois de assistir O Segredo de Vera Drake, gostaria muito, mas muito mesmo, de saber como uma Julia Roberts ou uma Renée Zelwegger da vida (duas atrizes supervalorizadas que já levaram até “certas estatuetas” pra casa) se sairiam num troço assim. De certo, elas sairiam correndo do set de filmagem, chorando desesperadas e xingando quem teve a idéia idiota de colocá-las no mundo! :-P

CURIOSIDADES:

O Segredo de Vera Drake foi rodado sem roteiro. Isto mesmo: tudo o que se vê na tela foi improvisado pelos atores através de dicas dadas pelo diretor Mike Leigh. O cineasta precisou passar todo o filme para o papel depois que recebeu a indicação ao Oscar de Melhor Roteiro Original, no início deste ano, já que para concorrer legalmente, é necessário apresentar uma cópia do script. É a primeira vez que sei de um roteiro escrito depois que o filme ficou pronto! :-D

• À exceção de Imelda Staunton, nenhum ator sabia qual era a real atividade da personagem Vera Drake. Este detalhe ajudou muito na hora das filmagens; quando os personagens descobrem que a senhora praticava abortos, suas expressões de horror são genuinamente reais.

• Uma cláusula contratual proibia os atores e a equipe técnica de comentar qualquer coisa sobre a fita. O orçamento do filme era tão apertado que uma semana de filmagens e dezenas de idéias do diretor tiveram que ser descartadas.

• Mike Leigh inscreveu O Segredo de Vera Drake para o Festival de Cannes, mas quando os organizadores do evento leram a sinopse do longa, recusaram exibi-lo. Azar o deles: a fita já é dona, até o momento, de 31 prêmios internacionais (a maioria, coroando o trabalho de sua atriz principal).

VERA DRAKE • ING/FRA/ZEL • 2004
Direção de Mike Leigh • Roteiro de Mike Leigh
Elenco: Imelda Staunton, Phil Davis, Eddie Marsan, Alex Kelly, Daniel Mays, Peter Wight, Adrian Scarborough, Ruth Sheen, Jim Broadbent.
125 min. • Distribuição: Fine Line Features/Imovision.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: