A Lula e a Baleia

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 16/01/2006.

A Lula e a Baleia (The Squid and the Whale)

O dicionário Aurélio define o termo filisteu como uma forma de se referir a “indivíduos de espírito vulgar”. Para o escritor fracassado e agora professor de literatura Bernard Berkman, filisteu é aquele ser desafortunado que não se interessa por livros e muito menos por filmes, conforme explica para seu filho Frank. Bernard acredita que o mundo é dividido por filisteus e não-filisteus, e seria bom se os representantes da segunda categoria evitassem se envolver com os integrantes da primeira, seres desmerecedores de crédito e inferiores por natureza – linha de raciocínio bem pejorativa, por sinal. Mesmo sendo apenas um mero pré-adolescente, Frank percebe a irracionalidade e a prepotência do pensamento de Bernard e não tarda a rebater: se ser um não-filisteu implica em seguir os ideais do pai, ele prefere ser um filisteu.

A meu ver, gostar ou não gostar de A Lula e a Baleia (The Squid and the Whale, 2005), drama autobiográfico escrito e dirigido por Noah Baumbach – mais conhecido como o co-roteirista de A Vida Marinha com Steve Zissou, de Wes Anderson –, envolve um pouco deste lance de ser ou não um “filisteu”. Como sabemos, grande parte do público que freqüenta os cinemas não é muito chegado em produções-cabeça, preferindo fitas mais comerciais e de melhor digestão. Sem qualquer traço de dúvida, este público certamente ODIARÁ A Lula e a Baleia com todas as forças. Não que importe muito, já que é visível que Noah Baumbach não fez este filme para agradar a todo mundo ou a platéias específicas. Na verdade, Baumbach criou A Lula e a Baleia apenas para uma pessoa: ele mesmo. :-)

O que acontece é o seguinte: as características de A Lula e a Baleia, que narra um período complicado da adolescência do próprio diretor, são bem peculiares. Seu fantástico roteiro, assim como o desenrolar das situações vividas pelos personagens, é quase totalmente linear, sem grandes tragédias ou mudanças muito bruscas de comportamento; os protagonistas não carregam nenhum atrativo especial – são pessoas comuns, tão comuns que beiram o banal; e a produção não se preocupa, em momento algum, em situar o espectador ou contar uma trama com começo, meio e fim. É como se alguém ligasse uma câmera de vídeo em uma casa de uma família qualquer, e desligasse depois de algumas horas, sem apresentar ninguém, sem explicar nada. Apenas captando imagens e deixando que elas falem por si só.

A família retratada aqui vive no Brooklyn de 1986 e é formada por quatro pessoas: Bernard (Jeff Daniels, As Horas), o pai; Joan (Laura Linney, O Show de Truman), a mãe; Walt (Jesse Eisenberg, Amaldiçoados), o primogênito; e Frank (Owen Kline), o caçula. Bernard tenta voltar a escrever, mas não consegue impedir a chegada de um indesejado bloqueio criativo. Joan, que foi dona-de-casa por toda sua vida, decide também ingressar na literatura e, logo de cara, revela um talento nato que rende frutos muito bem-sucedidos, algo que Bernard jamais conseguiu. Walt gostaria de seguir os passos do pai – e para mostrar que tem “potencial”, interpreta a quem quiser ouvir um dos maiores clássicos do Pink Floyd, Hey You, como se fosse de sua autoria. Frank, de espírito rebelde, rejeita o lado cult da família e prefere tentar investir em sua futura carreira de tenista profissional.

Nos primeiros 15 minutos de projeção, o casal Berkman anuncia aos filhos que finalmente se separará. A notícia cai como uma bomba na cabeça dos garotos. Walt toma partido do pai ao descobrir que a mãe fora infiel, e Frank defende Joan, apenas por ser consciente de que jamais será o modelo de filho que Bernard espera que seja, o que o torna um rejeitado aos olhos do pai. Walt e Frank não fazem idéia de como lidarão com sua nova rotina, já que morarão três dias e meio com o pai e três dias e meio com a mãe a cada semana…

Surgem problemas: o mais velho, mesmo namorando uma amiga de escola, apaixona-se pela nova namorada do pai, a sensual Lili (Anna Paquin, nossa gloriosa Vampira da trilogia X-Men), que por sinal é aluna dele; já o mais novo gruda no único sujeito que lhe demonstra um mínimo de afeto paterno, o namorado da mãe, o professor de tênis Ivan (William Baldwin). Não só isso: o moleque enfia-se na bebida (?) e torna-se obcecado por suas recentes descobertas sexuais, masturbando-se por todos os cantos da escola e espalhando o “resultado do ato” nos livros da biblioteca e nos armários dos alunos (!?!?).

Claro que Walt e Frank amadurecerão rapidamente, sofrerão uma série de golpes dolorosos e aprenderão algumas coisas sobre a vida… :-)

E por qual razão um longa tão simples como este não agradaria ao público médio, mesmo com um ótimo roteiro e atores tão bons? O caso é que A Lula e a Baleia não é tão fácil assim de digerir. A fita é recheadíssima de metáforas e piadas sutis nas entrelinhas, e as zilhões de referências a ícones da cultura pop, que vão de personalidades literárias como John Updike e J. D. Salinger até cineastas como François Truffaut, certamente passarão despercebidas. Sua narrativa é simplista, direta, parada, quase teatral, focada apenas no delicado e impetuoso desempenho de seus atores. Não há um mínimo de “ação” no sentido literal da palavra, nem mesmo na construção dos personagens. Ou seja: elementos de sobra para espantar muita gente. :-D

Por outro lado, nada disto importa. Ser um “filme-padrão” não é nem de longe a proposta de A Lula e a Baleia – e este é o grande charme da película. A Lula e a Baleia nada mais é do que a forma que Noah Baumbach encontrou para revisitar sua juventude e exorcizar seus fantasmas. Como conseqüência, entregou um grande trabalho, muito bem dirigido, magnificamente interpretado – o elenco é um show à parte, com destaque para Jeff Daniels, perfeito, e para o brilhante estreante Owen Kline – e com uma deliciosa cara de final dos anos 60/início dos anos 70, tanto na montagem, como no enquadramento de cenas e também na trilha sonora.

Então, A Lula e a Baleia é mesmo BOM? Bem, é uma rua de duas mãos. Você pode adorar ou odiar (e pra mim, particularmente, já é presença certa na futura listinha dos 10 melhores do ano), mas isto está diretamente ligado ao seu, digamos, “posicionamento” com relação ao lance pregado pelo patriarca do clã Berkman. Preferências à parte, é uma produção que, assim como o sublime Hora de Voltar, tem como principal trunfo ser absolutamente SINCERO. E este pequeno detalhe certamente quebrará as pernas de qualquer um. Seja você filisteu ou não. :-)

CURIOSIDADES:

• O roteiro de A Lula e a Baleia está pronto desde 1999. Laura Linney recebeu uma cópia das mãos de Eric Stoltz em 2000, durante as filmagens do drama de época A Essência da Paixão. Ela concordou em atuar no futuro longa imediatamente.

• Um dos pontos altos da película corresponde à atuação do excelente Owen Kline, intérprete de Frank. O garoto, de 15 anos, é filho de Kevin Kline e Phoebe Cates (a mocinha de Gremlins). Owen também escreve e desenha graphic novels, e possui um talento que eu queria ter a todo custo: ele tira de ouvido toda a discografia de Bob Dylan no ukelele. Uau! Eu quero este moleque como meu irmão mais novo. :-D

A Lula e a Baleia foi rodado em 23 dias.

• A trilha sonora do longa-metragem (desde já, obrigatória na prateleira de qualquer fã de folk music) ressuscitou dois grandes nomes da música sessentista: Bert Jansch e Loudon Wainwright III. Este último encerra o filme com a belíssima The Swimming Song, que rola na fita apenas nos créditos finais, depois da desconcertante Street Hassle, de Lou Reed.

• Sim, há um significado para a tal da lula e a tal da baleia do título do filme. Aliás, dois significados: um físico e outro totalmente metafórico. Mas é óbvio que não entregarei o jogo aqui, né? ;-)

THE SQUID AND THE WHALE • EUA • 2005
Direção de Noah Baumbach • Roteiro de Noah Baumbach
Elenco: Jeff Daniels, Laura Linney, Jesse Eisenberg, Owen Kline, Halley Feiffer, Anna Paquin, William Baldwin.
81 min. • Distribuição: Columbia.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: