Ventos da Liberdade

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 05/04/2007.

Ventos da Liberdade (The Wind That Shakes The Barley)

“É bom, mas não é pra todo mundo”.

Sim, você já deve ter lido o termo acima em zilhões e zilhões de críticas de filmes publicadas aqui n’A ARCA. Digo isto até porque esta é praticamente uma de minhas frases preferidas, visto que aparece em 99,99% dos textos de autoria da minha pessoa (sabe como é, se aparece um longa bizarrinho para resenhar e ninguém quer ver, vai o Zarko… hehehe). O problema é que a tal expressão costuma dar margem a diversas interpretações. Não é raro ver minha caixa de e-mails recheada de reclamações de leitores que acusam o pobre bastardo aqui de questionar e subestimar a inteligência do público em geral. Se um certo filme não é pra todo mundo, isto significa que são poucos os que têm QI para entender e curtir o mesmo e quem não gostou é porque não entendeu. Certo?

Hummm… não. Com certeza não. O fato é que há produções que, independente de seu resultado final, são voltadas para um público rigidamente específico. Algumas películas, principalmente as independentes e aquelas vindas do circuito europeu, tratam de certos assuntos que podem não ser do agrado de todos, o que nada interfere em sua qualidade. Um exemplo cabível é O Segredo de Brokeback Mountain, só para citar um título mais popular. Esquecendo o fato de ser bom ou ruim, conheço uma cacetada de gente que sequer cogitou a possibilidade de assisti-lo só porque traz um casal de homossexuais como protagonista. Outro exemplo é o recente Maria Antonieta, cuja posição política e narrativa pop certamente não agradará ao público que defende a história como ela se apresenta nos livros escolares. É ótimo? É mais ou menos? É um lixo? Não importa. Não é pra todo mundo.

O cinema do inglês Ken Loach é um exemplo típico. Ninguém que conheça um mínimo de cinema enquanto técnica e história é louco de questionar os méritos dos filmes do sujeito, que criou pérolas elogiadas e premiadas como Agenda Secreta (1990), Ladybird Ladybird (1994), Meu Nome é Joe (1998), Pão e Rosas (2000) e Apenas um Beijo (2004). Não são obras-primas que ficarão para sempre marcadas nos anais da indústria cinematográfica (!), mas passam o recado com uma competência que, hoje em dia, é raro de se ver. Só que o público médio, acostumado à correria, ao dinamismo e à estrutura-padrão dos fast-foods hollywoodianos, provavelmente não suportará a narrativa lenta, o enfoque 100% político, os diálogos-discurso e a total ausência de clichêzinhos básicos como romance e blá blá blá.

Muito ajuda o fato de Ken Loach ser um pusta de um indivíduo engajado que não está nem aí para os sentimentos básicos de seus protagonistas. Ele quer falar de POLÍTICA. Ele quer expôr seu ponto de vista, ele quer questionar as autoridades, ele quer denunciar. E dane-se quem quer ver romancezinho mela-cueca ou final feliz aqui.

A história se repete em Ventos da Liberdade (The Wind That Shakes The Barley, 2006), novo filme de Loach que levou a Palma de Ouro no último Festival de Cannes. Este pesado drama inglês ambientado na Irlanda do Norte dos anos 20 é exatamente tudo aquilo que a filmografia padrão do cineasta é: uma trama aflitiva e contundente, centrada exclusivamente em uma complicada questão de cunho sócio-político, violenta até a medula óssea, voltada para um público específico e rodada da forma mais simples possível, com enquadramentos simples, montagem simples, fotografia básica – escura, levemente granulada, bem irlandesa MESMO. Aliás, devo dizer que este filme é tão irlandês, mas tão irlandês, que só faltou o Daniel Day-Lewis no cantinho e uma música do Bono Vox no final! :-D

A simplicidade da estrutura técnica de Ventos da Liberdade não influi, claro, em seu resultado final. De qualquer forma, não estamos falando de um filme que exija uma megaprodução de Hollywood; Ventos é uma fita menor, sem poder de fogo para atrair as massas que curtem cinema como “diversão de final de semana”. Não que este público seja mais ou menos inteligente; só que é bem provável que muitos não estejam interessados em pegar uma telinha no sábado à noite para enfrentar duas horas de um cinema paradão e calcado em discursos militantes quase panfletários. E a presença de Cillian Murphy, sujeito que já ganhou Hollywood pela diversidade de seus papéis (assista Café da Manhã em Plutão e em seguida Batman Begins pra você ver), não muda em nada o teor independente da produção. Não é um filme que usa um quase-astro para se autopromover. Ainda bem! ;-)

Mas há um detalhezinho a ser frisado aqui. Só que isto fica para mais tarde.

Bem, o foco da trama delineada por Ventos da Liberdade é o conflito instaurado entre camponeses da zona rural da Irlanda e os milicos britânicos batizados Black and Tan, enviados pela Inglaterra para garantir que os irlandeses não tentassem conquistar sua independência e acabar com o domínio inglês em suas terras. Damien (Murphy) é o estudante de medicina que, já nos primeiros minutos, despede-se de seus amigos; ele conseguiu trabalho em um hospital de Londres e está de partida. Um súbito e covarde ataque dos Black and Tan (com o saldo de um morto) e um incidente na Estação de Trem bastam para que Damien mude seus planos de última hora e decida ficar na Irlanda. Damien presta juramento ao IRA.

Ao lado de seus amigos e de seu irmão Teddy (Padraic Delaney), Damien funda um pequeno exército de resistência que combate a tirania dos ingleses à base de (muito) sangue derramado. Seu objetivo: subjugar o domínio britânico e finalmente conseguir a tão almejada liberdade… usando das mesmas armas. A coisa sai dos trilhos quando é assinado um tratado de paz entre Irlanda e Inglaterra e o primeiro país finalmente conquista independência econômica parcial. A indecisão de manter-se fiel ao Reino Unido e a vontade de caminhar com as próprias pernas joga Damien de um lado e Teddy de outro. Assim, dois irmãos que lutaram juntos e sofreram juntos de repente vêem-se defendendo lados opostos e dispostos a eliminar um ao outro por amor à pátria.

Ok, contar mais estraga. Mas só este rápido plot já dá uma idéia do quão centrado é o trabalho de Ken Loach em Ventos da Liberdade. É “vamos falar de política” e ponto final. Por outro lado, é importante apontar que o grande tchans da fita é justamente construir personagens tão tridimensionais e entregar momentos comoventes sem intenção alguma. Se aprendemos até aqui que o cinema de Loach é categórico e frio, Ventos da Liberdade merece uma posição de destaque em seu currículo por ter ALMA. Não espere um romance, embora haja uma notável e persistente tensão afetiva entre Damien e a bela Sinéad (Orla Fitzgerald); também não espere um “eu te amo, maninho” em algum momento do roteiro, embora Cillian Murphy e o ótimo irlandês Padraic Delaney não precisem se esforçar tanto para transmitir a idéia de um forte elo entre o clã.

Mas esteja ciente de que, se você enfrentar uma sessão da película, não será difícil se comover com o desenrolar da “guerra interna” entre a Inglaterra e a Irlanda e também com o relacionamento turbulento e dedicado entre os dois irmãos, ainda que este não seja o fio condutor da coisa toda.

Tá, então bora para um resuminho: Ventos da Liberdade é uma produção bacana que, dentro de sua categoria, agrada bastante, mas não tem cacife para agüentar o circuitão comercial por contar uma história bem peculiar e de forma que nada contra a corrente de tudo o que o cinema de Hollywood prega atualmente. É parado, é simples, é tão politizado e tão engajado que até irrita, o que me faz automaticamente não recomendá-lo para o público mais “pop“, digamos assim. Porém, traz excelentes diálogos, ótimas interpretações de todo o elenco e, mesmo sendo extremamente simplista na parte técnica, é bastante competente. E reconstrói uma parte da história da Inglaterra que merece ser revista, até mesmo porque suas marcas ainda estão lá – para quem não sabe, alguns pontos da Irlanda ainda lutam por sua independência. Uma trama histórica, com um contexto bem atual. Pena que não são todos os interessados por trabalhos assim.

Eu não queria ter que dizer isso, mas… é bom. Mas não é pra todo mundo. :-P

CURIOSIDADES:

• O título original do filme, The Wind That Shakes The Barley (traduzindo literalmente, O Vento que Sacode a Cevada), é também o nome de uma cantiga entoada por uma senhora durante o velório do primeiro protagonista que morre em conseqüência dos conflitos entre os camponeses e os Black And Tan.

• Ken Loach comentou em uma entrevista que apenas 30 salas de cinema no Reino Unido concordaram em exibir Ventos da Liberdade. Muitos dos exibidores que recusaram-se a exibi-lo devido ao seu teor altamente político e inflamável voltaram atrás depois que a fita levou a Palma de Ouro em Cannes. Ao final, a película foi exibida em 105 salas de cinema, três vezes mais do que seus filmes anteriores no país da Rainha Elizabeth.

THE WIND THAT SHAKES THE BARLEY • ING/IRL/FRA/ESP/ITA/ALE • 2006
Direção de Ken Loach • Roteiro de Paul Laverty
Elenco: Cillian Murphy, Padraic Delaney, Liam Cunningham, Orla Fitzgerald, Laurence Barry, Aidan O’Hare.
127 min. • Distribuição: California Filmes.

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