Assalto à 13.ª DP

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 07/04/2005.

Assalto à 13.ª DP (Assault on Precinct 13)

E lá vamos nós para mais um remake! Desta vez, não estamos falando de filme de terror oriental – o que é um alívio, visto que esta modinha já apresenta claros sinais de cansaço. Enfim, a fita da vez é Assalto à 13.ª DP (Assault on Precinct 13, 2005), estréia em solo ianque do cineasta francês Jean-François Richet (do elogiado De L’Amour, inédito em solo brazuca) e releitura do divertido filme de pancadaria de 1976 que marcou o início da carreira cinematográfica de ninguém menos que John Carpenter – pausa para a reverência.

Bem, não duvidei em momento algum que a tarefa de escrever a crítica deste filme cairia em minhas mãos. Afinal, todos estão carecas de saber que não suporto remakes, e meus queridos amigos Fanboy e El Cid devem sentir um prazer inigualável ao me sacanear com relação a isso… Obrigado por me despacharem mais uma vez, amigões! Hunf. Por outro lado, sou naturalmente um dos caras mais indicados para falar sobre Assalto à 13.ª DP, uma vez que faço parte do reduzidíssimo grupo de pessoas que veneram John Carpenter. Sim, eu adoro o cara! Eles Vivem (1988), aquela fitinha B dos aliens espalhados pelo mundo e escondidos em propagandas publicitárias (!), é um dos meus longas favoritos, e talvez eu seja o único que defende com unhas e dentes a tosqueira-mór do cineasta, Vampiros (2001), aquele com o James Woods matando seres nefastos que andam à luz do dia numa boa (!!). Sejamos francos, até a mãe do John Carpenter deve odiar Vampiros! Mas este ser que vos fala adora, fazer o quê? :-P

Antes de conferir esta refilmagem, a primeira medida tomada foi correr atrás de uma cópia do Assalto à 13.ª DP original. A idéia era dar uma recapitulada na estrutura do enredo – assisti à película há tempos atrás, mas não lembro de patavinas – para fazer as devidas comparações. Só que ao final, decidi não comparar nada. Melhor assim: Assalto à 13.ª DP, o remake, é um filmaço de ação do início ao fim, cujo único compromisso com o espectador é divertir aos montes. E é justamente o que o público deve esperar ao assisti-lo. Nada de profundidade emocional, nada de enredo complicado, só um mote simples e funcional. E pelo amor de Deus, nada de comparações com o original! Até mesmo porque, do que me lembro da produção de 1976, somente a idéia central foi mantida.

Logo no início, o sargento Jake Roenick (Ethan Hawke, de Antes do Pôr-do-Sol) sofre um trauma quando, durante uma operação disfarçada para capturar um traficante de drogas, presencia a chacina de sua equipe. Oito meses depois, Roenick ainda está na polícia, mais exatamente chefiando a décima terceira delegacia de polícia de Detroit, trabalhando atrás de uma mesa, longe da responsabilidade de tomar decisões que possam custar a vida de seus homens. Por conta deste passado trágico, o sargento é obrigado a freqüentar sessões de análise semanais com a bela psicóloga da polícia, Alex (Maria Bello, de O Troco).

A trama começa pra valer na véspera de Ano Novo. A 13.ª DP será desativada no dia seguinte, e seus funcionários, transferidos para a 21.ª DP. Não há mais linha telefônica, sinal de rádio e presos. Aliás, o lugar está praticamente vazio, visto que fechará suas portas em menos de 24 horas. Roenick passará a noite no distrito, em plantão; mas isto não chega a incomodá-lo, já que passará a virada de ano na companhia de dois grandes amigos, a secretária Iris Ferry (Drea de Matteo, mais conhecida por seu papel em Família Soprano) e o veterano policial Jasper O’Shea (o ótimo Brian Dennehy), que confidencia que se aposentará em breve.

Em paralelo, o temidíssimo gângster Marion Bishop (Laurence Fishburne, nosso amigo Morpheus, f**ão como sempre!) é capturado pela polícia depois de assassinar um agente disfarçado durante uma missa – só pra se ter uma idéia de como o cara é frio! Enfim, Bishop é preso, para deleite do comandante Marcus Duvall (Gabriel Byrne, de Navio Fantasma), e será transferido para uma prisão de segurança máxima junto a três presos: o drogado Beck (John Leguizamo), o batedor de carteiras Smiley (o rapper Ja Rule, mais conhecido como “mamãe-acredito-fielmente-que-sou-um-bom-cantor”) e a suposta integrante de gangue Anna (Aisha Hinds).

A pancadaria tem início quando uma nevasca atinge a região e faz com que o ônibus que transporta os presos seja forçado a parar em algum lugar até que o tempo melhore. Este lugar, claro, será a 13.ª DP. Roenick, com o humor meio alterado por ter que agüentar a psicóloga lá (também impedida de sair do prédio por causa do mau tempo), não gosta nada da idéia de passar a noite com Bishop, um assassino de policiais. E como problemas sempre vêm aos montes… um grupo armado se instala do lado de fora do prédio, com ordens claras de eliminar todos que estão dentro da DP até o amanhecer. Todos, sem exceção. Roenick e Bishop decidem deixar as diferenças de lado temporariamente e se unir para sair da 13.ª DP com vida – o que conseqüentemente fará com que o sargento finalmente enfrente seus fantasmas.

Só para se ter uma idéia de como Assalto à 13.ª DP é simples, a platéia já sabe tudo o que precisa saber depois de 40 minutos de projeção. Quando os personagens são apresentados, você automaticamente sabe quem morre e quem vive no final (quer dizer, quase: há pelo menos uma surpresa chocante no decorrer do enredo). A partir daí, é só pauleira, tiros, explosões e afins. Nada das extravagâncias dos roteiros com reviravoltas complexas. Só o bom e velho “pau de loco”, no melhor estilo Duro de Matar. Claro que o fato de entregar a história antes da metade do filme não impede que o roteiro de Assalto à 13.ª DP seja tenso. Ao contrário: a trama, bem amarradinha, prende até o momento final e não ofende a inteligência do espectador com situações absurdas.

Outro ponto que funciona muito bem é a química entre os antagonistas Ethan Hawke e Laurence Fishburne. Hawke, mais acostumado a dramas, já demonstrou se dar bem no gênero policial, e até ganhou uma indicação ao Oscar por seu papel em Dia de Treinamento. Aqui, o ator está em casa. E Laurence Fishburne finalmente deixa para trás seus dias de Matrix e mostra que é o CARA: só um olhar de Marion Bishop já nos faz entender o motivo que faz os tiras usarem fraldinhas perto dele… Hehehe! O elenco secundário é eficiente e dá conta do recado, mas quem rouba o show mesmo é John Leguizamo, com o estúpido Beck – dono, aliás, de uma ridícula piada proferida no decorrer do filme que quase me fez molhar a poltrona de tanto rir, mas isto é uma outra história! :-P E devo confessar que, por mais que não concorde com esta mania horrível que os americanos têm de escalar rappers para atuar em filmes, até que o Ja Rule se sai bem! Mas é que o papel do cara não exige quase nada…

Enfim, Assalto à 13.ª DP funciona muito bem porque é consciente de que sua única razão de existir é entreter o espectador, sem intenções de se tornar um marco nos anais da história da indústria cinematográfica. Mais filmes assim, por favor! Bem, agora que tudo passou, posso confessar tranqüilamente, sem me aterrorizar com minhas próprias palavras: fui tomado pelo pavor quando soube deste projeto. Afinal, todos devem lembrar o resultado da última aventura de um cineasta francês com produções de ação nos States! Para quem não lembra… Mulher-Gato. Ugh! Porém, ninguém precisa se preocupar: não há gatos e nem a Halle Berry em Assalto à 13.ª DP. :-D

CURIOSIDADES:

Assalto ao 13.º DP, o filme original, foi escrito e dirigido por John Carpenter em 1976, e é também um remake; no caso, Carpenter criou o enredo de seu longa inspirado no clássico Onde Começa o Inferno (1959), delicioso western dirigido por Howard Hawks e protagonizado pelo lendário John Wayne.

• O papel de Jake Roenick seria originalmente interpretado por Mark Wahlberg, que pulou fora do projeto.

• Brian Dennehy andava meio sumido das telonas: seu último filme para o cinema foi Romeu + Julieta, de Baz Luhrmann, em 1996. Entre 1996 e 2005, entretanto, Dennehy atuou em mais de 25 trabalhos para a TV.

• Além de ator, Ethan Hawke também é diretor, roteirista e músico. Ele dirigiu o longa-metragem As Paredes do Chelsea Hotel (2001), lançado no Brasil somente em festivais; roteirizou Antes do Pôr-do-Sol ao lado de Richard Linklater e Julie Delpy (e concorreu ao Oscar de Melhor Roteiro); e interpretou quatro canções do divertido Caindo na Real (1994), um dos primeiros trabalhos de Ben Stiller como diretor.

ASSAULT ON PRECINCT 13 • EUA • 2005
Direção de Jean-François Richet • Roteiro de James DeMonaco
Elenco: Ethan Hawke, Laurence Fishburne, Gabriel Byrne, John Leguizamo, Jeffrey “Ja Rule” Atkins, Maria Bello, Drea de Matteo, Aisha Hinds, Matt Craven e Brian Dennehy.
109 min. • Distribuição: Universal/Rogue Pictures.

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