Amaldiçoados

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 17/07/2005.

Amaldiçoados (Cursed)

Se alguém me pedir para resumir numa única palavra a bocejante experiência de assistir a Amaldiçoados (Cursed, 2005), filmeco de terror (ou seria “terrir”?) dirigido por Wes Craven a partir de um script do roteirista-superstar Kevin Williamson, eu diria apenas que esta palavra seria: incrível.

1) Incrível… como o trailer entrega o filme:
Pois é, você já assistiu ao preview? Se sua resposta é afirmativa, então eu digo que você nem precisa ver o longa! Na verdade, não seria sequer necessário conferir a película para escrever esta crítica; somente o trailer como base já bastaria (mas claro que não faríamos isso, né!), porque todo o enredo de Amaldiçoados está em seu preview. Inclusive o final e a identidade do vilão-mór. Sim, é sério.

2) Incrível… como as previsões se confirmaram:
Não dá pra entender o que se passou pela cabeça de Wes Craven quando o cara aceitou dirigir Amaldiçoados. O homem que apresentou ao mundo o canalhíssimo Freddy Krueger – A Hora do Pesadelo (1984), lembra? – jamais poderia ter cometido tal erro. O que acontece é que, depois de revitalizar o gênero horror teen com o divertido Pânico (1996), onde tirava um barato grandão de todos os clichês do gênero, Craven roda este, que é simplesmente uma reunião de todos, eu digo, TODOS os mesmos clichês horríveis que o cineasta zombou. Não que ninguém soubesse disso, afinal, quem assistiu ao trailer final de Amaldiçoados provavelmente notou que o cara anda mesmo de férias. E rápido. :-P

3) Incrível… como o enredo é reciclado:
Dois irmãos, Ellie (Christina Ricci, de Monster – Desejo Assassino) e Jimmy (Jesse Eisenberg, A Vila), dividem as tarefas e servem de responsáveis um pelo outro depois da morte dos pais. Certa noite, em uma estrada escura e quase deserta, eles atropelam um animal e, em seguida, colidem em um carro. Tudo isto para testemunhar, incrédulos, a ocupante do outro carro (Shannon Elizabeth, American Pie) ser devorada e estraçalhada por algo que parece ser um lobisomem. Claro que Ellie e Jimmy escaparão deste evento com alguns arranhões e mordidas, o que fará com que, aos poucos, sofram certas “mudanças” em seu metabolismo, como o surgimento de pêlos em excesso, fome de carne crua, agilidade e faro aguçado…

4) Incrível… como já vimos isto antes:
Com cerca de dez minutos de exibição – tempo que leva até que ocorra o tal acidente –, já é possível adivinhar o que acontecerá no decorrer do filme. Claro que Jimmy, estudante usado como saco-de-pancadas pelos atletas do colégio, adora a idéia de ganhar sentidos sobrehumanos. Afinal, assim o fracote poderá se vingar de seus coleguinhas e ganhar a gatinha da escola. Enquanto isto, Ellie, a parte adulta da família, prefere agir racionalmente e tenta de qualquer maneira subverter a maldição. Em Amaldiçoados, há de tudo. Desde a “gostosinha” da primeira cena, cuja única função na história é servir de “comida”, até o namorado muuuito suspeito da mocinha (Joshua Jackson, do seriado chulé Dawson’s Creek). Desde os sustos óbvios até as seqüências de pesadelos.

5) Incrível… como Kevin Williamson não passa de um plagista:
Claro! Afinal, ele nem escreveu nada de fato. Só o que Williamson fez foi mesclar muitos elementos dos roteiros dos bacanas Possuída e Os Garotos Perdidos, alterar os nomes dos personagens e incluir algum elemento pop e cool para dizer que é sua marca pessoal (no caso, as zilhões de citações ao Lobisomem de Lon Chaney). Tudo para disfarçar sua falta de criatividade. O cara não se dá ao trabalho nem de aprofundar-se mais em seus personagens centrais! Sim, eles são órfãos. O que aconteceu? Dá para explicar?

6) Incrível… como o que é ruim pode ficar ainda pior:
Sim, o roteiro de Williamson está todo no trailer. E devo dizer que, se fosse APENAS aquilo, até que não seria tão ruim. Mas eis que o roteirista teve a brilhante idéia (entenda isto como uma expressão irônica) de inserir uma “segunda conclusão” na história. Esta tal segunda conclusão não só ofende totalmente a inteligência do público como é capaz de enterrar de vez a carreira do cara. Tanto mistério, tanto segredo, para entregar a identidade do lobo e… Deus, que decepção. Que péssima escolha. Que explicação tenebrosa! E ainda somos brindados com uma cena horrorosa, em que o lobisomem aparece numa janela e mostra seu glorioso dedo médio (!?!), como resposta a um personagem qualquer, que sugere que “sua bunda é magricela” (!?!?!). Lamentável. Em seguida, como é de praxe, a trama dá uma reviravolta e então, descobrimos que o final… é aquele que todo mundo já sabe. Afe!

7) Incrível… como a produção é preguiçosa:
Ok, concordo que é inegável que, quando trata-se de um filme de terror cuja única proposta é dar uns sustinhos, o enredo pode ser ruim numa boa, desde que cumpra sua proposta de assustar – assim como foi o ruim-porém-climático O Pesadelo, aquele do Bicho-Papão. Mas a direção-de-piloto-automático de Wes Craven é tão desleixada que nem mesmo isto consegue. Os sustos são tão programados que você já sabe quando, como e onde dará aquele salto-mortal da poltrona (e no final, acaba não levando susto nenhum). A transformação do lobisomem não chega à unha do dedinho do pé da obra-prima Um Lobisomem Americano em Londres, o “humor corrosivo” que a sinopse diz existir aqui está mais para American Pie do que para Grito de Horror e as criaturas em CGI são tão falsas quanto os lobos de O Dia Depois de Amanhã.

8) Incrível… como o elenco parece ter sido escolhido por correspondência:
Sim, os atores interpretam aqui tão bem quanto o elenco de Malhação. Até mesmo a coitada da Christina Ricci, dona de um enorme e indiscutível talento, está perdida. Certamente ela topou trabalhar aqui só para complementar o orçamento ou para botar em dia algumas continhas atrasadas (!). Pelo menos, somos poupados da tragédia total com a beleza sempre bem-vinda de Portia de Rossi, do finado seriado Ally McBeal e atualmente no elenco de Arrested Development, que paga um mico federal como uma vidente maluca. Aliás, é só eu ou mais alguém aí acha que a Christina Ricci se tornou um belo de um mulherão?

9) Incrível… como o Joshua Jackson é um total canastrão:
Isto foi um comentário pessoal. Mas ele é mesmo, contra fatos não há argumentos! :-)

10) Incrível… como eu joguei dinheiro fora assistindo isso:
Em pleno mês de blockbusters nos cinemas, gastar bufunfa com ingresso para Amaldiçoados é algo injustificável. Fuja disso como o diabo da cruz! Ou como um lobisomem de bala de prata… Hehehe!

E para finalizar, um recadinho do coração para o caríssimo senhor Wes Craven: nós gostamos de você. Gostamos de Freddy Krueger e também de Pânico. Mas vê se abre o olho na próxima (até que Vôo Noturno, que estréia daqui a alguns meses, parece ser interessante). E por favor, não volte a trabalhar com Kevin Williamson. Seus fãs, comovidos e aliviados, agradecem. :-P

CURIOSIDADES:

• A produção de Amaldiçoados foi marcada por diversos problemas, todos envolvendo o roteiro. Diz a lenda que Kevin Williamson reescrevia trechos completos durante as filmagens, alterando o enredo e eliminando personagens, fazendo com que Wes Craven refilmasse mais de 40% do filme e demitisse atores já contratados. Alguns até chegaram a filmar, como Illeana Douglas, Heather Langenkamp, Scott Foley, Omar Epps, Robert Forster, Skeet Ulrich e Corey Feldman. Ulrich faria o papel que caiu nas mãos de Joshua Jackson.

• O papel vivido pela cantora sem sal Mya seria originalmente interpretado por outra cantora sem sal, Mandy Moore. Moore foi demitida por chegar sempre atrasada às filmagens.

• A conclusão de Amaldiçoados aconteceria inicialmente em um museu de cera. Enquanto reescrevia o roteiro, Williamson soube que um remake do clássico de terror B Museu de Cera (1953) seria produzido pela Warner Bros., o que fez com que o roteirista mudasse a ambientação do clímax da fita para uma espécie de danceteria temática.

CURSED • EUA • 2005

Direção de Wes Craven • Roteiro de Kevin Williamson

Elenco: Christina Ricci, Jesse Eisenberg, Joshua Jackson, Judy Greer, Portia De Rossi, Michael Rosenbaum, Milo Ventimiglia, Mya, Shannon Elizabeth.

97 min. • Distribuição: Europa Filmes.

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