Um Beijo Roubado

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente no Judão, em 10/04/2008.

Um Beijo Roubado (My Blueberry Nights)

Ao contrário do que possa parecer, Um Beijo Roubado (My Blueberry Nights, 2007) não é apenas um draminha romântico daqueles que elevam a taxa de glicose dos seres humanos em 752% (!), como tantos que vemos espalhados pelas salas de cinema, principalmente nesta época de “entresafra”, época de lançamentos menores que só servem para nos distrair enquanto os megablockbusters de meio de ano não dão as caras. Na verdade, salvo alguns pormenores em seu resultado final, Um Beijo Roubado merece sim nossa atenção, e não só por ser um belo filme, mas também por sua “importância” – tanto que o longa foi escolhido para abrir o Festival de Cannes de 2007. Responsa, hein? :-)

Esta importância ao qual me refiro diz respeito a dois nomes envolvidos no projeto: Norah Jones, musa do jazz e um dos nomes mais festejados do atual cenário musical ianque, e Wong Kar-Wai, cineasta intimista vindo de Hong Kong e o sujeito por trás de obras fenomenais e bastante comentadas entre os cinéfilos de plantão, como Amores Expressos (1994), Felizes Juntos (1997) e 2046 – Os Segredos do Amor (2004). A primeira estréia como atriz; o segundo, estréia na direção de longas em língua inglesa. Tudo pra dar certo!

Bem, quase tudo. O fato é que os filmes de Wong Kar-Wai são bem peculiares, para não dizer “totalmente bizarros”, o que faz com que o público médio repudie seu trabalho com freqüência. Tomando como exemplo sua obra mais popular (e também aquela tida como seu ápice na carreira), o já clássico Amor à Flor da Pele (2000), o que temos é um estilo narrativo apoiado em metáforas dificílimas de desvendar, diálogos que não ajudam muito, interpretações comedidas, passagens de dias, meses e anos em um único corte e sem o menor aviso, e referências escondidas até na rebimboca da parafuseta que aparece durante 2 segundos no cantinho superior esquerdo da tela (!!). Só para se ter uma idéia, no caso de Amor à Flor da Pele, até a cor da cortina do corredor de um hotel carrega um significado escondido que, ao final da projeção, terá indiscutível importância para a compreensão da obra. Jisuis!

A característica mais marcante do diretor, entretanto, é simplesmente concluir suas histórias sem explicitar o que de fato aconteceu; peças são distribuídas ao longo da projeção e poucas perguntas são de fato respondidas. Cabe ao espectador buscar as respostas, de acordo com sua interpretação pessoal. Os desavisados e aqueles que não curtem exercitar a massa encefálica devem passar longe, pois o máximo que terão quando sair do cinema será um belo ponto de interrogação do tamanho do monstrengo de Cloverfield na cabeça. :-D

Um Beijo Roubado foge um pouco à regra, até mesmo porque estamos falando de uma produção tipicamente estadunidense e com certo apelo comercial. Por outro lado, a odisséia da novaiorquina Elizabeth (Norah Jones) é pontuada por diversas marcas registradas do cinema de Wong Kar-Wai. Estão lá as seqüências em câmera lenta, a ambientação, a soturna e magistral fotografia que reverencia tons de vermelho, sombras e azul-neon (cortesia de Darius Khondji, o mesmo fotógrafo dos macabrésimos Delicatessen e Seven – Os Sete Crimes Capitais), as metáforas nas entrelinhas, os diálogos com infinitas interpretações, e uma trama que fala, sobretudo, de pessoas que se distanciam e seguem caminhos tortuosos em busca de um pouco de afeto e de aproximação, linha presente em todas as suas obras.

Basicamente, se você está sofrendo de dor de galho, este é o filme de sua vida! Viu só? Não tente cometer suicídio assistindo três sessões seguidas de Os Espartalhões! Tudo tem solução! :-D

Veja só o caso de Elizabeth, a princípio totalmente banal: um belo dia, a moça recebe um delicado “pé na buzanfa” de seu namorado. Inconsolável, refugia-se em um café bem cultzinho próximo ao apartamento do ex (hehehe) e faz amizade com o dono do estabelecimento, o boa-praça Jeremy (Jude Law), que também tem uma história triste e possui o hábito de dar conselhos sentimentais a seus fregueses. Passam-se alguns dias, e Elizabeth impulsivamente decide cair no mundo. Viaja pelos EUA sem destino, para tentar encontrar um sentido para sua vida – sem esquecer-se de relatar seus passos em cartões postais enviados ao amigo que ficou para trás.

No trajeto, Elizabeth conhece sujeitos com histórias de vida tão ou mais cruéis que a sua própria, como o policial alcóolatra Arnie (David Strathairn, que rouba todas as cenas em que aparece), sua ex-mulher Sue Lynne (Rachel Weisz), e a maluquinha viciada em pôquer Leslie (Natalie Portman LOIRA e totalmente perua – ai, ai…). Não é preciso ser um gênio para matar que Elizabeth terá que enfrentar situações que esfregam em sua cara que um romance acabado não é nada perto de outros processos de perda bem mais traumáticos. A bagagem emocional adquirida com a jornada fará com que a mocinha amadureça e tente encontrar formas de dar a volta por cima. Bonito isso, não? :-D

O enredo de Um Beijo Roubado é deveras interessante, mas o resultado final, ainda que ótimo, está a anos-luz das obras relevantes de Wong Kar-Wai, verdade seja dita. Arrisco dizer que estamos falando de seu trabalho “menos bom” até o momento, e a culpa reside exatamente na “suavização” do estilo do cineasta para tentar conquistar um público mais amplo. Em um português mais claro: não há complexidade, é tudo muito fácil, quase mastigado. E na primeira meia-hora, centrada exclusivamente nas conversas entre Elizabeth e Jeremy, transparece a falta de química entre os dois atores centrais e a artificialidade de alguns diálogos. Sério, tem horas que dá vontade de dar uns murros no Jude Law! Geralmente o cara é bacana, mas aqui ele está meio “mala”. :-P

Por outro lado, simplesmente nos esquecemos de qualquer erro quando a personagem de Jones põe o pé na estrada. Primeiro, porque as historinhas de cada um dos personagens secundários são naturalmente bem mais interessantes que a trama centralizada em Elizabeth. Segundo, porque não dá pra saber quem está melhor em cena – e o mais legal é que Norah Jones, com experiência zero como atriz, não se intimida e compete pau a pau com Rachel Weisz e Natalie Portman. De verdade, o enorme talento de Jones definitivamente não se restringe à música e Um Beijo Roubado só nos faz querer ver a cantora em milhões de outros filmes. Desde que seja em fitas BOAS, por favor. Nada de assinar contrato com o titio Uwe Boll, tá? Hehehe.

Tá, mas então… afinal, é ruim ou é bom? A resposta é: vale uma visita (e de preferência na TELONA, pois a fotografia é simplesmente espetacular). Não é para todos os públicos, tampouco foi feito para ficar marcado nos anais da indústria cinematográfica, mas deixa qualquer espectador, até mesmo os mais distraidinhos, com um sorrisão no rosto e cantarolando a deliciosa The Story, canção que abre e fecha a projeção. Uma boa para quem quer fugir das bobeiras comerciais que andam pipocando nas telas, ou para quem procura um programinha mais “cabeça”. E pra completar o dia, saia do cinema, vá comer uma torta doce no primeiro café que encontrar e aproveite para caçar sua cara-metade, o cadarço do seu tênis, a cereja do seu sorvete… e se tiver o rosto e a voz rouca da Norah Jones, sai fora que essa é minha. :-D

MY BLUEBERRY NIGHTS • HK/CHN/FRA • 2007
Direção de Wong Kar-Wai • Roteiro de Wong Kar-Wai e Lawrence Block
Elenco: Norah Jones, Jude Law, David Strathairn, Rachel Weisz, Natalie Portman, Frankie Faison, Cat Power.

93 min. • Distribuição: Europa Filmes.

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