Hora de Voltar

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 10/03/2005.

Hora de Voltar (Garden State)

Um homem da cidade grande, por ocasião de um acontecimento trágico, decide retornar à sua terra natal para revisitar suas origens, reviver o passado, exorcizar os fantasmas do presente e, talvez, dar uma nova cara ao seu futuro. Idéia original? Não mesmo. Mas o que pensar quando um dos filmes mais surpreendentes e fascinantes desta nova safra do cinema independente americano traz este plot como base? E o mais assustador: o que pensar quando este mesmo filme é um drama sensível que marca a estréia na direção de um… ator de comédias?

É mais ou menos isto que você encontrará em Hora de Voltar (Garden State, 2004), o hiper-comentado debut do ator Zach Braff (do seriado cômico Scrubs, da Sony) na direção de longas-metragens – que finalmente estréia em terras brazucas. E quando você sai da sessão, entende perfeitamente o motivo de tanto alarde em cima da produção. Zach Braff, que completa 30 anos em 2005, criou uma obra comovente que atropelou muito diretor veterano viciado em clichês que diz “saber fazer cinema”. Na verdade, Braff somente subverte estes clichês, suavizando-os a favor de sua história. Sorte de principiante? Hum, duvido muito.

Hora de Voltar fala sobre o retorno de Andrew Largeman (Braff) à New Jersey. Largeman, ou apenas Large, é um ator razoavelmente fracassado – até agora só fez sucesso com um único papel, o de um deficiente mental num seriado de TV (mera semelhança?) – que vive em Los Angeles e ultimamente anda sobrevivendo dos bicos que faz como garçom e coisas do gênero. Large recebe um recado de seu pai, o psiquiatra Gideon (Ian Holm, fenomenal), dizendo que sua mãe acabou de falecer. Gideon é incisivo quando afirma que a presença de Large no enterro seria conveniente. Large, que não fala direito com o pai, decide por si só que o retorno ao antigo lar é uma ótima oportunidade de passar alguns dias distante dos antidepressivos e do lítio receitados pelo próprio Gideon. A razão? Calma, isso será revelado pelo próprio Large, e de uma forma até anticonvencional: num bate-papo normal, sem gritos, sem tensão. Sem os estereótipos cinematográficos.

A estrutura do roteiro, escrito pelo próprio Braff, nada mais faz do que acompanhar Large na “volta para casa”. Testemunhamos então o reencontro com os antigos colegas – particularmente o dúbio coveiro Mark, desde já imortalizado pelo ótimo Peter Sarsgaard, de Meninos Não Choram – e a descoberta de um novo amor em Sam – interpretada por Natalie Portman, provando de uma vez por todas que Closer: Perto Demais não foi somente um trabalho bem escolhido em sua carreira -, garota que é tudo aquilo que Large não é: alegre, divertida, e principalmente viva. Acima de tudo, o retorno de Large a New Jersey é a oportunidade única de sentir algo que nunca sentiu antes: a vida correndo em suas veias. E tudo parece caminhar pacificamente até o instante do iminente acerto de contas com o pai – algo que Large foge como o diabo da cruz.

Beleza, o enredo tá aí. E porque o falatório todo, afinal?

Bem, são muitas coisas a se destacar. Zach Braff revela um olhar detalhista, cuidadoso e muito sensível em sua direção, equilibrando comédia e drama em doses mínimas e calculadas. Seus personagens são tridimensionais até a medula, e não estão ali somente pra ocupar espaço na tela. Seu roteiro é simples e usa um plot até meio ultrapassado, mas não há como não se render aos ótimos e bem-humorados diálogos, bem defendidos por atuações densas e verdadeiras de todo o elenco. Principalmente no caso de Peter Sarsgaard, que rouba todas as cenas em que aparece e entrega um personagem cuja única perspectiva de vida é continuar respirando. Seu Mark é o protagonista de um plano para Large que, ao final, revela-se uma das melhores e mais tocantes seqüências do filme, culminando na já conhecida cena do cartaz – que encontra seu tom certo e nada piegas ao som da maravilhosa The Only Living Boy in New York, de Paul Simon e Art Garfunkel.

E por falar em trilha sonora, as músicas são excelentes! É sair da sala e comprar o CD. Ah, qualquer filme que comece com uma música hindu e parta para um Coldplay logo em seguida já merece meu respeito! :-D

Outro ponto acertado é a escolha de Natalie Portman para dividir a tela com Braff. As cenas em que Large e Sam estão juntos rendem momentos belos, marcantes e muito divertidos, como o ótimo bate-papo na piscina e a cena em que ambos fazem “algo que nunca foi feito antes por ninguém” (assista e entenda, oras!). A interpretação de Portman para a problemática Sam representa mais um grande acerto na carreira da atriz. E se alguém lhe questionar, nerd babão, sobre o motivo de querer fundar um Templo em Adoração à Natalie Portman (!), peça para este alguém assistir a Hora de Voltar e então ficará tudo claro. Nem precisa ver a fita inteira: basta chegar até a cena em que Large observa Sam enquanto ouve no walkman New Slang, do The Shins. Este foi o momento em que este que vos fala se apaixonou pela moça. E um comentáriozinho rápido: é impressionante como se percebe, o tempo todo, a onipresença de Gideon à sombra de Large. Cortesia, claro, da genialidade do inglês Ian Holm (o Bilbo Baggins da Trilogia Sagrada O Senhor dos Anéis), um dos grandes atores em atividade na indústria cinematográfica hoje em dia.

Tá, tudo bem, estes pontos não são suficientes para definir o grau de qualidade de um longa-metragem. A questão é que o trabalho de Zach Braff traz um fator a mais: é SINCERO. A impressão que dá é a de assistir um vídeo caseiro, cujos protagonistas são pessoas reais e não criadas em papel e celulóide. Hora de Voltar é tão pessoal e carinhoso com si mesmo e com o espectador, que é como se estivéssemos em algum barzinho, conversando com o próprio Braff sobre a vida, trabalho, relacionamentos. É como se Braff segurasse seu rosto e dissesse baixinho, só pra você: “Tudo bem, eu sei que o negócio tá preto. Mas tá assim pra todo mundo, então dá um jeitinho de se levantar e continuar andando, tá limpo?”. Você já se sente feliz só de ter esta sensação. Alguém aí se lembra da última vez em que sentiu esta sinceridade no cinema? Caso sua resposta seja igual à minha – ou seja, um belo de um NÃO gigantesco -, prepare-se para ficar com Hora de Voltar na cabeça por algum tempo.

Pra resumir, mais do que um trabalho sobre a redescoberta de uma pessoa, é uma declaração de amor ao cinema e à aceitação da vida do jeito que ela é, fracassada ou bem-sucedida. E é uma prova viva de que não é necessário um festival de efeitos especiais ou um roteiro cheio de surpresas e reviravoltas mirabolantes pra fazer o público se sentir envolvido e encantado com a arte de fazer cinema. Pois é, e precisou de um novato pra nos mostrar o que muito veterano tenta e não consegue! Que vergonha, hein… :-P

CURIOSIDADES:

• Zach Braff declarou recentemente que boa parte do roteiro de Hora de Voltar é inspirado em seus próprios dias de ator desempregado antes do sucesso de Scrubs, em que praticamente vivia entre New Jersey e Los Angeles. Natalie Portman era a escolha inicial de Braff para o papel de Sam, mas o diretor nunca pensou que ela pudesse aceitar interpretar a personagem. Nós agradecemos aos dois por isso.

• O título original do filme, Garden State (“Estado dos Jardins”, forma que os norte-americanos referem-se a New Jersey), ainda não tinha sido escolhido até o final da produção. Braff adorava o título Large’s Ark (“A Arca de Large”) que, apesar de resumir perfeitamente o espírito do longa-metragem, não agradou muito. Ao final, Braff aceitou Garden State depois de testar vários nomes com os mensageiros do estúdio, e sua companhia foi batizada de Large’s Ark Productions.

• A canção que toca na cena do avião, a cena de abertura do filme, é na verdade uma oração a um Deus hindu. Era dessa tal “música hindu” que eu estava falando lá em cima.

GARDEN STATE • EUA • 2004
Direção de Zach Braff • Roteiro de Zach Braff
Elenco: Zach Braff, Peter Sarsgaard, Natalie Portman, Ian Holm.

109 min. • Distribuição: Fox Searchlight/Miramax/Buena Vista International.

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