Diamante de Sangue

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 03/01/2007.

Diamante de Sangue (Blood Diamond)

Em uma pequena cabana de bambu, em algum ponto de Serra Leoa, África do Sul, um pai acorda o filho para ir à escola. O filho reclama, quer ficar mais um pouco na cama improvisada ao chão, “eu não preciso ir à escola todos os dias”. O pai o levanta, “você precisa ir todos os dias à escola sim, para se tornar um médico e não acabar como um pescador como seu pai”. O menino se convence, levanta ainda sonolento e, com o auxílio do pai, veste o uniforme. Na cena seguinte, um grupo de mercenários empreende uma chacina a este pequeno povoado de pessoas paupérrimas, matando sem dó homens, mulheres, crianças, bebês. “O governo diz que o voto é a solução, que a melhora do país está em suas mãos; então sem mãos, não há votos”, o líder do grupo declama enquanto seus “companheiros” mutilam os braços de alguns civis impotentes.

Esta trágica seqüência de eventos, que não poupa o espectador e eleva a crueldade humana a níveis inimagináveis, abre o superestimado Diamante de Sangue (Blood Diamond, 2006) e acontece em menos de dez minutos de filme. Uma abertura simplesmente GENIAL quando se vê na tela grande, e que já dá uma idéia do que esperar nos quase 140 minutos de projeção. Bem, nada mais justo para um longa que se propõe a retratar um acontecimento tão violento e sanguinário quanto a “corrida do ouro” e a guerra civil que assolaram o país de Serra Leoa entre 1991 e 2002, onde a disputa pelo controle das minas de diamantes por grandes corporações estrangeiras fez alguns se rebelarem contra a tirania do governo, deixando um saldo de aproximadamente 400.000 mortos e mais algumas milhares de pessoas, muitas delas crianças e adolescentes, com braços e pernas decepadas – os meninos poupados eram convertidos a soldados aliados aos rebeldes que queriam derrubar o então presidente. Desde cedo, estes garotos aprendiam a cheirar, fumar e matar.

Conhecendo a trajetória política de Serra Leoa, entende-se conseqüentemente que um filme sobre esta mancha na história da África só poderia mesmo ser muito, muito difícil de se assistir – e que o resultado teria tudo para ser, no mínimo, importante e necessário. Então… o que diabos aconteceu a Diamante de Sangue?

Bem, o que aconteceu é que uma trama com um potencial gigantesco foi entregue a um diretor que não é medíocre, mas está longe prá cacete de ser bom. E este diretor (o estadunidense Edward Zwick), que já não tem um currículo muito memorável (Lendas da Paixão, Coragem Sob Fogo, O Último Samurai…), iniciou sua película com uma narrativa simplesmente embasbacante, mas no meio do caminho deixou-se cegar por sua mania de enfiar megalomania onde não é necessário e achou que um punhado de clichês passaria despercebido em meio a um tema tão importante. O resultado é que, mesmo com um fantástico ar de obra-prima em sua primeira hora, Diamante de Sangue comprova a partir de seu segundo ato que nenhum enredo é auto-suficiente. Sinceramente? Eu já esperava, em se tratando deste cineasta – na boa, Tempo de Glória, pra mim, é só o que se pode chamar de ÓTIMO na filmografia do sujeito.

E olhe que a história criada em cima do conflito renderia um filmaço com “F” maiúsculo: ao início da projeção, o simplório pescador Solomon Vandy (Djimon Hounsou, mais conhecido da galerinha nerd como o Papa Midnite de Constantine) presencia a chacina de seu povoado, vê sua esposa e filhos tornarem-se refugiados e é seqüestrado pelo temidíssimo grupo rebelde FRU (Frente Revolucionária Unida), liderado pelo Capitão Poison (David Harewood), para trabalhar em regime de escravidão nas minas de diamantes, que seriam posteriormente usados no financiamento de armas.

Em paralelo, conhecemos o mercenário sul-africano Danny Archer (Leonardo DiCaprio), contrabandista de diamantes malandrão e egoísta, especializado em troca de armas, a serviço de um dos apoiadores da política local, Coronel Coetzee (Arnold Vosloo, a Múmia em pessoa). Archer, que só quer saber de dinheiro, é preso ao tentar atravessar a fronteira da África do Sul com um punhado de pedrinhas. A história de Archer e a de Solomon cruzam-se na cadeia: o que acontece é que o exército desbaratou uma das minas de diamantes da FRU; momentos antes, Solomon encontrara um raríssimo e enorme diamante rosa, o mais desejado pelos fornecedores de armas e também pelos próprios rebeldes, e conseguiu escondê-lo antes de ser capturado. Archer toma conhecimento do ocorrido e enxerga no tal diamante o seu próprio futuro fora daquele caótico lugar. Já Solomon sabe que a pedra pode lhe custar a vida, mas também pode lhe trazer sua família de volta.

Obviamente, os dois se unirão para sobreviver ao caos e chegar ao diamante escondido antes dos rebeldes. No meio do caminho, Archer encontra uma bela aliada na figura da destemida jornalista Maddy Bowen (Jennifer Connelly), que pretende usar seu trabalho para denunciar a participação de figurões da política ianque na guerra civil e, para isto, quer sua história. Paralelamente, Solomon enfrenta um enorme dilema ao saber que seu filho Dia (o estreante Kagiso Kuypers) foi seqüestrado pelo FRU, tornou-se um dos soldados mirins assassinos mais sanguinários da facção rebelde e agora é o mais novo protegido do mesmo Capitão Poison que lhe prometeu a morte por conta do sumiço do diamante rosa.

O enredo é bom… e até a conclusão de seu primeiro ato, certamente muitos apontarão Diamante de Sangue como um dos trabalhos mais impactantes do ano passado. A estrutura narrativa equilibra bons diálogos com personagens bastante interessantes e cenas bem perversas. Digo logo que, se você se abala facilmente, não deve nem pensar em conferir o longa, já que Edward Zwick não dá trégua ao estômago do público e mostra sem dó nem piedade o resultado dos sangrentos ataques da FRU. Então, é fácil acompanhar a fuga de Archer e Solomon e notar, no canto da tela, mulheres inocentes e crianças de menos de cinco anos sendo metralhadas a torto e a direito. Para se ter uma idéia, não é exagero afirmar que os 30 minutos iniciais de O Resgate do Soldado Ryan e o sadismo do Capitão Vidal no delirante O Labirinto do Fauno parecem brincadeira para o que é retratado aqui.

Sério, é incrível como, nesta primeira parte, Diamante de Sangue comove sem fazer esforço algum. Enxergar as seqüências dos conflitos e saber que tudo aquilo realmente aconteceu nos faz perceber como os problemas com a nossa política, lotada de sujeitos que conseguem ter a cara-de-pau de dobrar seus próprios salários e achar que são justos, não são NADA em comparação à miséria e à desvalorização da vida humana espalhadas pelo resto do mundo.

Infelizmente, à medida que a trama explicita a dura rotina de Serra Leoa e passa a focar mais em seus personagens, o caldo entorna. O que estava excelente, de repente fica arrastado, arrastado… Cá entre nós, acredito que aqueles que porventura assistirem a esta fita no DVD, num futuro próximo, não resistirão à tentação de usar a milagrosa tecla Fast-Forward para ver logo o que acontece no fim e desligar a TV. A culpa não é, de modo algum, dos personagens e nem de seus intérpretes. Pelo contrário: Jennifer Connelly está cada vez mais talentosa (e linda); Leonardo DiCaprio prova novamente que é sim um excelente ator; e Djimon Hounsou, como Salomon, firma-se definitivamente como o melhor ator negro em atividade no circuitão atual, ao lado de Jamie Foxx, Don Cheadle, Forest Whitaker e Morgan Freeman (e eu não estou nem aí para o Denzel Washington e aquele lixo atômico chamado Deja Vu, desculpe por ter nascido). :-P

O problema é mesmo a direção de Edward Zwick. Na pretensão de transformar seu filme em um novo clássico, Zwick esqueceu de trabalhar seu roteiro (de autoria de Charles Leavitt, o mesmo do chatíssimo K-Pax – O Caminho da Luz) e preferiu injetar zilhões de clichês que destróem o climão construído em sua introdução. Somos forçados, então, a engolir uma redenção pouco convincente do personagem de Leonardo DiCaprio, uma desnecessária sugestão de envolvimento amoroso entre Archer e Maddy (que, bidu, odeiam-se inicialmente), um previsível confronto entre Salomon e o Capitão Poison, a transformação do pacato Solomon em “exército de um homem só” quando encontra seu filhinho… em um dos momentos mais irritantes, Poison deixa de lado seu discurso de guerrilheiro e, ao melhor estilo “vilão estereotipado”, se auto-proclama “o diabo em pessoa”. Afe.

Isto, para não falar da seqüência extremamente mela-cueca que mostra o centro de reabilitação dos soldados mirins e as crianças mutiladas tentando readaptar-se a uma vida normal. Daí vem aquela música triste de fundo e o Leonardo DiCaprio declamando que aquela é a terra que Deus abandonou… Mais Steven Spielberg do que isso, impossível. Alguém precisa avisar o roteirista e o diretor que não precisa programar o enredo para fazer o espectador se comover e cair no choro, nós já entendemos o recado. Tudo isso é vontade de ganhar um Oscar, é? :-P

Enfim, Diamante de Sangue é BOM ou RUIM? Poderia ter sido fenomenal. Mesmo. Infelizmente, a direção preguiçosa e padronizada perdeu a chance de entregar uma grande fita – de grande aqui, só o tempo de duração mesmo – e não faz jus à importância do tema que foca. E este detalhe, em se tratando de um pretenso épico que quer ser o retrato definitivo de um pedaço importante da história do mundo, é mais do que imperdoável. Ao final, Diamante de Sangue entretém em sua primeira metade, cansa pra burro em sua segunda metade, e seu resultado geral serve apenas para confirmar que, se enredos banais podem se transformar em películas bem contundentes quando bem contadas, enredos contundentes também podem se transformar em películas bem banais quando mal contadas.

E para ver como se conta uma história deste naipe de forma digna, sempre há um Hotel Ruanda na prateleira da videolocadora mais próxima de você. :-)

CURIOSIDADES:

• Leonardo DiCaprio foi indicado ao prêmio de Melhor Ator no Satellite Awards, por seu papel em Diamante de Sangue. Perdeu o troféu para Forest Whitaker, que levou por O Último Rei da Escócia. DiCaprio também concorre ao Globo de Ouro de Melhor Ator (Drama), onde tem a si mesmo como rival, já que ganhou indicação tanto por este quanto por seu trabalho em Os Infiltrados. Pela sua atuação como Solomon, Djimon Hounsou ganhou o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante na premiação do National Board of Review.

• Embora a ação da cena passada em Londres aconteça em 1999, é possível notar um Volkswagen Jetta modelo 2005 passeando pelas ruas…

BLOOD DIAMOND • EUA • 2006
Direção de Edward Zwick • Roteiro de Charles Leavitt
Elenco: Leonardo DiCaprio, Djimon Hounsou, Jennifer Connelly, Kagiso Kuypers, Arnold Vosloo, Anthony Coleman, Jimi Mistry, David Harewood, Michael Sheen.
138 min. • Distribuição: Paramount.

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